segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
1979 (2) e injustiças
Essa é para quem gosta de futebol - minoria esmagadora de um contingente já bem reduzido! Sobre o post '1979', basta dizer que naquele ano, pela primeira vez a dupla Zicrótes (Zico e Sócrates) jogou na seleção brasileira, convocada por Cláudio Coutinho - sucesso absoluto, óbvio! Mas não só. Aos 18 para 19, Maradona chegava à seleção principal de seu país com o mesmo sucsesso, e Guarani (Zenon, Renato, Careca e cia) e Ponte Preta (Dicá, Odirlei, Humberto, Oscar, Carlos) estavam entre o cinco ou seis melhores times do Brasil - além de Palmeiras de Jorge Mendonça e Telê Santana, Flamengo de Zico e Coutinho (e Seleção Brasileira), e Internacional de Falcão, Jair e Batista. PS: não nos esqueçamos do Corinthians de Sócrates e Palhinha. PS: inacreditável que Odirlei não tenha sido convocado para a Copa da Argentina em 78 - Coutinho preferiu improvisar o jovem zagueiro Edinho na posição (lateral-esquerda). Idem Sócrates e Falcão - este menos, pois hoje tendo a concordar com o grande Oswaldo Brandão (além de Coutinho, claro) que Chicão era mais eficiente naquele setor.
Para quem nunca cogitou escutar uma canção do Roberto.
É simples. Ouça, na voz do cantor, Como Dois e Dois, de Caetano Veloso. Trata-se de um blues meio à brasileira, mas tudo bem, é uma das grandes canções de Caetano, o que está longe de ser pouco. O compositor baiano tinha 27 para 28 anos e ainda estava em seu exílio londrino quando compôs esta linda música down, de letra e melodia mais que inspiradas. E a voz de Roberto soa estupenda.
http://www.youtube.com/watch?v=5VkcRR9eiOw
http://www.youtube.com/watch?v=5VkcRR9eiOw
Cinema e cartilha
Sobre a boa entrevista de Jean-Claude Bernardet a Luiz Zanin Oricchio, no Estadão de ontem, gostaria de comentar algumas coisas. É justíssimo que Jean-Claude prefira o cinema sem a narrativa (ainda que muitos filmes considerados de arte façam questão de mantê-la). Até aí tudo bem, porque ele é um pensador do cinema, e dos bons, e tem o direito de admirar o tipo de cinema que quiser. Mas em dado momento da entrevista, chega a defender o cinema como indústria, a pretexto de citar Paulo Emilio, mas quase como se fosse uma grande concessão, um tipo de mal necessário. Me ocorre que o problema do cinema no Brasil talvez seja faltar justamente intelectuais importantes como Jean-Claude, mas que defendam um ponto de vista diferente, um cinema menos ousado e nem por isso (ou de forma alguma) mal feito - algo como Francis Ford Coppola, para citar um exemplo clássico, e que possa forjar uma indústria de ótima qualidade, no extremo da ponta, e de boa a aceitável, na média. Isso poderia ter criado um público mais extenso e fiel, o que poderia ter nos proporcionado a tal indústria. Sabemos que a existência de técnicos ultra-competentes que se exige no bom cinema é formada pela demanda da indústria. Onde forjar um Gordon Willis, um Sven Nykvist, senão na quantidade? Na televisão? Na publicidade? Talvez, e tem sido assim no Brasil mais recentemente, mas com resultados pífios (é claro que tem sempre um Dib Lufti para ser a exceção, mas também foi assim com Glauber – os grandes talentos, para não dizer gênios, são sempre pontos fora da curva). Um outro tema que me chamou a atenção na entrevista foi o Cinema Novo - Bernardet o admira por supostas inovações formais que o movimento teria promovido. A colocação não me surpreendeu, mas não concordo com ela. Só se ele restringir seu alcance ao Brasil, já que a Nouvelle Vague foi o que foi e surgiu antes - é como exaltar Villa Lobos pelo que realizou Stravinsky. Não sei. Acho que o fato da reflexão sobre o cinema brasileiro ter se desenvolvido com mais velocidade exatamente no período em que a visão marxista imperava poderia ser uma explicação, mas o próprio Jean-Claude faz questão de afirmar que não deve nada a ela. Mas no fundo, é como se devesse – se por um lado não reza da cartilha, por outro não se dispõe a bater de frente em questões-chave, como a indústria cinematográfica que surgiu nos Estados Unidos, por exemplo. Acho que o fato da Globo Filmes ter hoje tanta importância é antes - entre outros motivos - conseqüência do grande vácuo que os teóricos brasileiros permitiram que surgisse no debate ao longo das últimas quatro, cinco décadas. Ainda está em tempo.
1979
Sobre o post anterior, considero 1979 um ano especial, aqui e lá fora, tantos foram os grandes discos lançados, e que com o tempo (não muito, diga-se) se tornaram clássicos incontestáveis. Não tenho tempo agora para listar, mas o farei assim que puder. Não, não resisto a citar pelo menos três. Off The Wall, Cinema Transcendental e London Calling.
Past
A década de 1970 foi uma autêntica segunda época de ouro da canção no Brasil. Talvez ainda mais rica e diversificada que a dos anos trinta. Ao pensar no que foi produzido entre 1971 e 1980, fica até difícil de entender como foi possível. Era um tempo em que Caetano, Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Roberto e Erasmo Carlos estavam no auge da forma, produzindo praticamente um novo LP por ano e não raro mais de um (como músicas inéditas e só uma ou outra regravação). Cantoras como Gal, Bethânia, Elis, Clara Nunes, idem e, com menos freqüência, a linda voz delicada de Nara Leão. Havia os jovens Alceu Valença, Djavan, Fagner, Walter Franco e Marina (já no finalzinho da década), sem contar Jorge Ben, Tim Maia, João Gilberto, e o verdadeiro início do rock nacional, com Casa das Máquinas, Rita Lee, Tutti Frutti e Arnaldo Baptista. Não faltavam bons produtores, como Guto Graça Mello, Rogério Duprat, entre muitos outros. No mundo, o rock e o pop viviam igualmente um período extraordinário, com inúmeras grandes bandas e talentos-solo como Led Zeppelin, Bowie, Stones, Iggy Pop, Neil Young, Lou Reed, Pink Floyd, Queen, bandas punk, punk rock e já pós-punk, Marvin Gaye, Michael Jackson, disco music etc, etc. A música erudita tampouco era ignorada, e uma grande quantidade de gravações entrou para a história, como a dos pianistas Horowitz e Abbado, as philarmônicas de Viena e Berlim, orquestras de rádios do leste europeu, entre vários outros registros. A indústria do disco florecia, e esse boom incentivava o surgimento de grande talentos, numa espécie de círculo virtuoso perfeito. Uma outra era. E até que durou muito.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Cruz e Sousa - Vida obscura
"Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro.
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres.
O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste no silêncio escuro.
A vida presa a trágicos deveres.
E chegaste ao saber de altos saberes.
Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto.
Magoado, oculto e aterrador, secreto.
Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos.
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços.
E o teu suspiro como foi profundo!". O autor deste soneto não foi grande? Sim, claro que foi. Grande ao quadrado.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Realidade
Me ocorreu que a literatura brasileira dos últimos 25 anos é como o rock brasileiro, um pastichão de vários estilos, e isso na melhor das hipóteses. Fico tentado em estender esse tempo em uns 400 anos e incluir teatro e cinema (mas não poesia). Com as belas exceções de sempre - que no máximo formariam um time de futebol de campo, com banco de reservas - não acho que seria um exagero.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Ufa
A primeira década do século ainda não acabou, mas já deu para perceber uma tendência que, espero, se realize. O fim do revival da década de 1980, principalmente em relação à música. Tudo bem, foi mesmo uma grande fase do pop, mas pelamor, já deu.
Tiro no pé
O fanatismo, a deturpação do conceito do politicamente correto é um equívoco por várias razões, mas tem uma em especial, que merece ser destacada: está deixando mais à vontade justamente as pessoas com uma postura preconceituosa, que agora se sentem mais seguras para falar suas barbaridades sobre minorias sem se preocupar com as conseqüências, o que nos faz recuar de imediato em uma ou duas décadas. E fazem isso porque sabem que o politicamente correto está na berlinda, por culpa dos radicais, que estão conseguindo esvaziar o seu discurso. É lamentável, porque estes patrulheiros da opinião alheia dão um tiro nos pés ao tirar o foco do que realmente importa: a verdadeira postura politicamente correta – que agora infelizmente virou palavrão – tem objetividade e foca no preconceito, explícito ou dissimulado, mas sem ter a pretensão de servir de juiz e censor da humanidade sobre todo e qualquer assunto ou opinião. É uma burrice que já está custando caro.
Clima - o não debate
Ontem no Roda Viva, uma entrevista com um climatologista brasileiro membro do IPCC, Carlos Nobre. Questionamento quase abaixo de zero. É por essas e outras que o programa, que já foi um marco na tevê brasileira, tornou-se irrelevante – lembro das lágrimas de José Genoino na época do mensalão e as expressões de comoção que elas provocaram nos entrevistadores, uma cena patética, que marcou época no pior sentido. Para Nobre, os que não concordam com o relatório do IPCC de 2007 devem estar a serviço de algum lobby muito poderoso, como o do setor de petróleo, por exemplo, o eterno vilão. E claro, nenhum entrevistador lembrou que grande nomes da ciência estão se manifestando contra o relatório - acusá-los de levianos corruptos é mais complicado, por isso melhor não perguntar... O programa já estava chegando à metade até que uma entrevistadora menos condescendente lembrasse – quase pedindo desculpas – que o clip da abertura estava equivocado (ela não usou esta palavra, claro), pois as imagens das chuvas recentes de São Paulo, ponte desabando no Rio Grande do Sul, inundações em São Luiz do Paraitinga, entre outras, teriam muito mais a ver, segundo ela, com os efeitos do El Niño do que com as conseqüências do aquecimento global. Nobre concordou, e acrescentou que as nevascas no hemisfério norte – que também faziam parte do clip - tampouco são fatos anormais durante o inverno... Até onde eu consegui ver (porque desliguei não muito depois), nenhuma pergunta para a questão crucial de a humanidade ser ou não diretamente responsável pelo aquecimento global recente, as distorções deliberadas que vieram à tona nos e-mails trocados por cientistas do IPCC, ou se o percentual estimado (não pelo IPCC) de nossa participação na quantidade total de dióxido de carbono na atmosfera estaria correto (seria de apenas 5%), nada, nada, só blábláblá sobre ‘mudar o comportamento’ dos governos para antecipar as tragédias etc, etc, como se isso fosse simples, sem falar que as próprias previsões estão longe de ser unanimidades. E o Roda Viva se transformou nisso, não há debate - seja porque todos concordam com tudo que fala o entrevistador (a maioria das entevistas), seja porque, no raro caso de um entrevistado não ser algum queridinho da emissora, os antigos cordeirinhos se transformam numa autêntica artilharia pesada, com o intuito deliberado de impedir que o convidado consiga concatenar as idéias e responder. Pena.
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