quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Os outros
Quando dirijo sem pressa, às vezes gosto de observar os absurdos que os motoristas cometem o tempo todo para ganhar alguns segundos. O problema é que, quando também estou apressado, geralmente faço coisas parecidas. Argh para mim.
Má-fé
Pensando no post abaixo, constato que o comunismo soviético teve a grande sacada de conseguir reconhecer e captar certos anseios de liberdade de costumes ainda muito reprimidos nos anos 1910 e 1920, principalmente no que toca as mulheres, e que isso deve ter soado de fato bastante sedutor, e não só a elas. Penso que ainda hoje esse progressismo - que se revelou apenas de fachada, claro - segura as pontas (a duras penas) de certo marketing que a esquerda ainda tenta vender por aí. Joseph Goebbels também bebeu nessa fonte, e no seu caso, vendia até ecologia - no pacotão de uma nova sociedade que tb os nazis anunciavam que estaria por vir. Bom, o ditado 'quem vê cara não vê coração' nunca me soou tão verdadeiro, Deus me livre. Deus nos livre.
Proper time?
Ouço pelo celular as últimas sonatas para piano de Scriabin*. São atonais sem ser dodecafônicas, pois apesar de ter sido contemporâneo de Schoenberg, Scriabin pesquisou por conta própria – assim como Prokofiev e Debussy – um caminho alternativo à tonalidade. Mas queria enfatizar outra coisa. As sonatas a que me refiro foram compostas há mais ou menos 100 anos (prefiro as primeiras três sonatas deste gênio russo, mas agora isso não vem ao caso). Ouvindo a música já quase atonal de Scriabin, ela ainda me soa bastante experimental, uma audácia inacreditável na forma e conteúdo. Sabemos que as duas primeiras décadas do século 20 (as de 1900 e 1910) foram assim, vanguarda total, e não só na música: na pintura (Picasse, Braque, depois Dali), ciência (Einstein e Planck), poesia e literatura dadá etc, etc. Mas em relação aos costumes - e é aí que queria chegar - ainda era um tempo muito sombrio e atrasado. Uma época quase que exclusivamente voltada para os homens adultos. O resto - mulheres de qualquer idade e crianças - que fosse catar coquinhos. Pensando sobre isso, constato que é absolutamente normal, e não contraditório, que tenha sido assim (na prática ainda é, mas com outros atores). Porque acredito que a arte - ao menos a grande arte - no que toca a criação, é uma atividade solitária, particular, e aceita tudo, ou pelo menos não proíbe nada a priori. Mesmo os grandes movimentos e tendências artísticas nascem a partir de criações individuais. E se algo importante não for assimilado imediatamente, não deixará de existir por isso, e pode conseguir impor-se, ou no mínimo conviver com outras formas de expressão, com outros estilos, em não muito tempo. Stravinsky foi vaiado e quase levou tomates na cara, mas não corria risco de vida. Já os costumes estão incrustados na sociedade de forma coletiva, e mesmo mudando aos poucos, por iniciativas individuais, eles só se modificam ao se examinar uma fotografia maior do seu alcance. E quem os transgride corre riscos reais. Einstein impôs uma nova lei da gravidade, e mesmo que isso chocasse a sociedade – como chocou – uma nova verdade teve de ser aceita em pouco tempo, como de fato acabou por ser. Mas a demanda por mais liberdade para as mulheres, tolerância com opções sexuais diversas, menos rigidez hierárquica no trabalho etc, etc, só podia ser concebida naquele período como uma possibilidade no longo prazo, isso quando se pensava nela. As gerações só mudam aos poucos, e é apenas o resultado dessa mudança no longo prazo que propicia o surgimento de um novo cenário, que vai se renovando aos centímetros. Aquele avô avesso ao novo, mas que aceita isso ou aquilo, o pai já mais tolerante, mas nem tanto, o neto com outra cabeça – na verdade, quando o neto virar avô ou mesmo depois disso é que tudo terá de fato mudado. Mas a arte não precisa de tanto tempo, porque apesar de fundamental, ela é fruto de nossa criação, vem depois do humano e não antes, por mais elevada que venha a ser.
*(no programa ‘Pianíssimo’, de Gilberto Tinetti, Cultura FM)*
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Os incomuns e os anormais
Tem gente que confunde ter uma vida incomum com ter uma vida anormal. E a explicação costuma vir da tentativa de decalcar a vida de algum ídolo, que, como todo ídolo, geralmente tem uma vida incomum devido à fama e ao sucesso (e dinheiro), mas não necessariamente leva uma vida anormal - já que a maioria se casa, tem filhos (ou adota), cria e educa esses filhos, sai com amigos etc. Essas pessoas acham que, detonando a tudo e a todos, vão conseguir se aproximar desse ídolo de alguma forma - supostamente imitando o estilo de vida daqueles artistas mais instáveis. Por isso viram junkies, alcoólatras, são arrogantes etc, etc, e tudo o que conseguem é levar uma vida anormal. Mas, se tivessem talento, iriam à luta para conseguir o que realmente almejam, que é fama e sucesso, ou seja, uma vida incomum, e nada demais nesta pretensão. Mas para isso teriam que trabalhar muito, e essa gente, além do escasso talento, não é chegada a suar a camisa. Mesmo um ex-junkie como Iggy Pop, teve de ralar muito para chegar onde chegou, e neste caso havia um talento descomunal e o destino atuando a seu favor (evitando que morresse). Viva Iggy Pop, o mais autêntico dos pop stars vivos.
Um PS
Não tenho nada contra o fato de Walter Salles ser um herdeiro bilionário, não mesmo. Reconheço que ele se tornou um cineasta de renome internacional à custa de trabalho e esforço próprios. Não subestimo o sucesso de ninguém - por isso respeito o sucesso da Xuxa, por exemplo, que igualmente precisou de doses de talento e trabalho para chegar onde chegou. Só que não sou obrigado a admirar o trabalho dela, não é verdade? Assim como não me sinto obrigado a aplaudir Walter Salles, pelo prosaico motivo que acho sua obra fraca, equivocada. De qualquer forma, pelo menos Salles não é pretensioso como Eduardo Coutinho, nosso "gênio" do cinema direto. Depois quero falar algo a respeito de sua obra.
De novo ele
Outra pérola de Salles é aquele curta que ele realizou para o filme Paris Te Amo (ou algo assim), em que vários cineastas convidados fizeram pequenos filmes usando a cidade como tema, nada muito original, mas tudo bem. Bom, em nova parceria com Daniela Thomas (sempre ela!), Salles resolveu atacar de... crítica social, claro. Resumindo a história, que já é bem curta. Uma bela colombiana, mãe de um bebê recém-nascido, não tem tempo de cuidar dele, já que precisa se deslocar todo o santo dia de seu quarto e sala de um distante distrito parisiense a um bairro chique na parte velha da cidade, onde trabalha de babá o dia todo para uma família de milionários - franceses com pedigree. Quanta contradição e injustiça, meu Deus! O filme é isso, mais nada, muito sutil. Para Salles, deveria ser proibido ser mãe e trabalhar para outras mães. Melhor que ela trabalhasse num bar, por exemplo – ser garçonete parece mais cool. Talvez fosse melhor ela não trabalhar, e gozar de merecida licença-maternidade, para poder se dedicar ao filho etc, etc. É claro que a situação não é a ideal, mas quem disse que a realidade de sua vida difícil na Colômbia não seria bem pior? Quem disse que o fato de trabalhar temporariamente como babá (com um salário nada desprezível) seria assim tão ultrajante, tão “contraditório”, ou mais contraditório que ser garçonete? Não precisa ser um Freud para palpitar que Salles deve ter tido a presença de babás em sua vida, e que isso, além do fato de ser um herdeiro bilionário, deve lhe provocar alguma culpa etc e tal. Daí a sair por aí realizando filmes demagógicos e populistas foi um pulinho – não sem antes mergulhar nas “contradições” do mundo rico e ultra tecnológico do Japão – quem sabe foi lá que teve seu “estalo”, estalo que o fez alterar a rota, literalmente. Não importa. O fato é que esse filmeco tb passou batido pela crítica brasileira, que não viu nada de errado com ele – um crítico conhecido teve a pachorra de escrever em seu blog que o filme de Salles era um dos destaques entre todos os curtas do longa!! Verdade que os demais não eram grande coisa, mesmo - gostei de um ou dois, se tanto (o de Gus Van Sant). Mas para mim é inegável que o filme de Salles conseguiu ser, de longe, um dos piores. É isso, viva nosso cinema tacanho e nossa crítica indulgente. Argh.
Pérola e sintoma
Tem uma cena em Linha de Passe, de Walter Salles, que considero sintomática de muita besteira a que já nos habituamos no Brasil, e não só no cinema. É aquela, já no final, em que o motoboy que decidiu virar marginal já está em seu segundo ou terceiro assalto, mas as coisas dão errado, e ele, para fugir da polícia, seqüestra um carro com o motorista dentro, obrigando este – com um revólver apontado para sua cabeça - a seguir com ele. Depois de um tempo, o assaltante obriga o dono do carro – que está visivelmente apavorado – a parar no meio de um campo de futebol de terra, já na periferia da cidade (São Paulo). Assim que o carro pára, dá-se uma verdadeira jóia da demagogia contemporânea. O diálogo exato não saberia reproduzir aqui, porque faz quase um ano que assisti ao filme, então reproduzo o sentido geral da coisa. O assaltante está muito nervoso e irritado, até aí tudo bem, isso seria de se esperar, já que é inexperiente e está lidando pela primeira vez com a possibilidade real de ser preso. Mas em seguida ficamos sabendo que a principal causa de sua irritação não é o medo, mas o fato de constatar que o fulano que está sendo sequestrado (só isso...) prefere não olhar diretamente para ele, assaltante. Isso, sim, seria o fim da picada e inaceitável... Fica subentendido que o filme encampa essa visão de mundo, reforçando que o dono do carro deve ser mesmo um boçal que merece passar pelo aperto que está passando - afinal, possui um "carrão" (!). Segue imediatamente o seguinte diálogo, um instant classic: “vocês da elite nunca olham para a gente, então olha agora, pelo menos, tô mandando“ etc, etc. O coitado, a contragosto, encara o rapaz, e faz-se um suspense sobre se haverá ou não uma execução. O happy end é que o assaltante libera o cara e sai correndo, que gesto mais nobre... Simplesmente patético, porque a tentativa de transformar a vítima em criminoso e vice-versa não é mais tentativa, é fato. E é duplamente equivocada, já que o filme não está sendo leviano apenas com quem “tem carros novos” – os eternos mauzinhos e culpados por todas as mazelas brasileiras – mas tb com a classe dos motoboys e pobres em geral, pois é como se todos eles estivessem a um passo da marginalidade, o que é altamente preconceituoso, absurdo, além de mentiroso. Mas nada como ser um bilionário descolado e premiado para poder cometer esse tipo de idiotice sem que a grande imprensa publique sequer UMA LINHA a respeito. Porque procurei na época, e não encontrei nada, claro, então decidi registrá-la aqui. Mas antes fosse só uma derrapada. Não é. O Brasil já virou, e faz tempo, o paraíso da demagogia barata, e ela passou a ser necessária inclusive para se obter financiamento público. Argh.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Atraso
Certos brasileiros adoram falar mal de um suposto mau gosto dos americanos em geral. É engraçado. Porque geralmente são brasileiros de classe alta ou média alta criticando norte-americanos de classe média média, ou baixa. Usam dois pesos e duas medidas, claro, mas o mais importante para mim é outra coisa. Acho que esse tipo de afirmação, de crítica, trai uma visão de mundo extremamente reacionária, que prega o atraso, mesmo que inconscientemente. E é fácil de entender por quê. O Brasil ainda tem uma classe média pequena - está crescendo, mas é proporcionalmente pequena - a grande parte é de pessoas com nível escolar muito baixo, qualificação idem, que pouco ou nada consomem, então não têm visibilidade para ser criticados, são meio que 'invisíveis' - para quem não sabe, mais de 70% da força de trabalho brasileira ganha no máximo um salário mínimo (dos quais mais da metade recebe bem menos que isso). Por isso não são atacados por esses cricris, pelo menos não diretamente, e por puro constrangimento, pena de nossos "coitadinhos" - os mesmos que lhes prestam serviço a baixo custo, sem reclamar muito. Mas esse é o ponto. Se o Brasil conseguisse, por exemplo, crescer em ritmo chinês por 30 anos (ou menos), nossas classes médias iriam aumentar muito com a chegada de um novo e maciço contingente de ex-pobres. De forma que a quantidade de consumidores aumentaria na mesma proporção, mas consumidores estes ainda sem muita informação e potencialmente "cafonas" etc. Portanto, quando e se isso de fato acontecer, o Brasil passará a ter, sim, uma quantidade muito maior de gente cafona viajando nos aeroportos, com roupas de combinações duvidosas etc, e isso seria ou deveria ser ABSOLUTAMENTE DESEJÁVEL. Mas parece que aqui não é... porque criticar um país como os Estados Unidos, exatamente por ele ter conseguido forjar uma classe média que, na prática, é a classe dominante, isso num território maior que o nosso e com população tb superior, é, no fundo, desejar que nós continuemos na mesma, que nada ou pouco mude no Brasil, e assim possamos continuar a vomitar nosso bom gosto em aeroportos do primeiro mundo. E um PS: a prática que citei de se usar dois critérios - nossa classe média alta detonando a baixa dos americanos - além de equivocada e meio covarde, é de uma ignorância total, porque essa gente fala como se os Estados Unidos não possuíssem, eles mesmos, uma elite cultural, social, científica etc, etc. Os descolados e chiques de lá, quando o são, costumam por no chinelo praticamente qualquer um que possa ser enquadrado nestas categorias aqui. E, óbvio, a quantidade de bacanas de lá é muito maior que a daqui, proporcionalmente, inclusive. Ufa, finito!
O Silêncio é nosso
Quem gosta de música sabe da importância do silêncio. Escrevi aquele post ("Música e histeria"), criticando quem ouve música o tempo todo, pensando exatamente nisso. Por isso acho engraçado ter havido na história da música uma figura como John Cage. Ele meio que reivindicava que a importância do silêncio era mérito seu, o que acho ridículo, porque agindo assim ele estava simplesmente tentando se apropriar do silêncio, do sagrado silêncio nosso de cada dia, tão raro quanto fundamental. A experiência do silêncio, como a luz do sol, a água, o olfato etc, é algo ao mesmo tempo intangível, particular e universal, individual, portanto não pode ser adquirida e reprocessada, como pretendia Cage. Esse é outro cuja obra é tão chata quanto desnecessária...
O iconoclasta
Uns anos atrás, em uma daquelas gostosas entrevistas formato bate-bola que aconteciam aos domingos na última página do caderno Cultura, do Estadão (pena que esta seção acabou), um músico e compositor brasileiro, com reconhecimento internacional, respondeu da seguinte maneira a pergunta sobre uma obra que seria "chata, mas necessária", ou algo assim. Implacável, cravou A Arte da Fuga, de Bach. Comentando isso com uma amiga, uns dias depois, ela tb não hesitou: "chata é a obra dele". Na mosca. Mas hoje, acrescentaria que a obra do sujeito, além de chata, é desnecessária, hehe!
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