terça-feira, 29 de junho de 2010

Blogs y la obra

A principal acusação (velada) contra blogueiros em geral é que estes – suprema pretensão – ambicionam criar uma obra, por pior que seja (a aposta em Freud é infalível, o acerto, não). Mesmo assim, qual o problema? Quem nasceu para ser José Eduardo Dutra nunca será Tocqueville, até aí tudo bem, e daí? Recentemente, um editor de uma conhecida revista de literatura (brasileira) ponderou (!) que o que falta na rede é justamente.... guess what?, edição!! Bom saber...

Nelson e a Copa

Se Nelson Rodrigues ainda fosse vivo, acho que torceria contra o Brasil. É que aquele complexo de vira-lata que tanto o incomodava deu lugar à uma soberba e oba-oba ridículos. Seria como se a sua 'grã fina de nariz de cadáver' ("who's the ball?"!), tivesse se tornado uma legião, e uma legião barulhenta. Não duvido que essa nova realidade lhe causasse repulsa.

Pós-sábado

Esta Copa está produzindo um efeito diferente e interessante em São Paulo. Nos jogos do Brasil em dias da semana, a cidade não só pára antes (com acento, ainda não é obrigatório) como fica tranqüila (idem), pós-jogo, por horas e horas. Mesmo quando o Brasil joga de manhã (às 11h), nada de "produtivo" acontece no resto do dia. Até quem não gosta de futebol parece apreciar não ter de fazer nada em dia útil, sem culpa. E é uma atmosfera que chama a atenção por ser diferente da que existe nos domingos, por exemplo, mais silenciosa e triste. Está mais para um feriado que caiu no sábado, em que quase ninguém viajou, mas em que se comemora coletivamente alguma coisa. Na verdade, não existe uma data específica do calendário em que isso acontece em São Paulo, a não ser Copas do Mundo, especialmente esta, porque até a Copa passada, a sensação de folga não se estendia tanto depois dos jogos - a megalópole agora globalizada se permite um relax maior, e isso faz sentido, não é um paradoxo. É um belo contraponto à histeria coletiva DURANTE os jogos. De qualquer forma, apesar de ter uma defesa fantástica e um time mais equilibrado, acho que nos despedimos na sexta-feira, contra a Holanda.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Alberto Iglesias

Os grandes filmes de Almodóvar não seriam tão grandes sem a música de Alberto Iglesias - acredito até que são mesmo dependentes dela. As trilhas de Iglesias funcionam como um segundo (às vezes único) narrador nos roteiros do grande cineasta. Mas às vezes são mais do que isso, porque a música, com sua intensidade e beleza, mais do que dialogar e complementar, consegue se expressar como se fosse um personagem autônomo - mas não qualquer personagem, um protagonista. No fundo, é. Está entre as mais felizes parceiras do cinema.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Link

Entrevista de Caetano Veloso concedida ao poeta Régis Bonvicino em São Paulo, no final de 1979. Linda e longa. Mas tudo soa como se fosse um tempo pré-histórico. Deve ser porque no Brasil, até o final dos anos 80, o atraso era bem mais encorpado. Na época, Régis tinha 24 anos e Caetano, 37. http://www.sibila.com.br/index.php/critica/1139-caetano-veloso-1979
Aliás, o site Sibila, de Bonvicino, sobre poesia e literatura, é bem bacana.

Itália garfada

Tudo bem que a seleção italiana, desfalcada de Pirlo e Buffon, seus dois melhores jogadores, não estava jogando um futebol dos sonhos, longe disso, mas também não precisava ser roubada como foi, hoje, contra a brava Eslováquia. Simplesmente DOIS gols anulados incorretamente, lamentável. Se fosse com o Brasil, a choradeira não terminaria nunca. Aqui só vale roubar a favor.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Curtas

O Canal Brasil (não confundir com Lula News) bem que podia ter um outro canal só de curtas-metragens. Assim, quem gosta de sua programação se veria livre deles.

sábado, 19 de junho de 2010

Las Tablas

Extremamente feliz o programa de Luis Nachbin no canal Futura (Passagem para...), mostrando o carnaval de Las Tabas, no Panamá, com suas rainhas, poieiras (instrumento de percussão), rumbas, idosos e jovens se divertindo na rua, sem ansiedade... Como assim, sem ansiedade? Parece contraditório aqui, porque o Brasil é (ou se tornou) histérico quando se trata de diversão. Me fez refletir que nós nos apropriamos do carnaval como se o tivéssemos inventado, e como se o que se faz no resto do mundo nessa época fosse fake ou careta. É uma idéia equivocada, cheia de ignorância. Las Tablas é o máximo, com uma atmosfera singela e complexa, difícil de descrever em palavras, até porque estou com preguiça de escrever. Grande Nachbin.

PS: um grande amigo leu este post e me falou que Las Tablas o fez lembrar de um carnaval inesquecível que passou em Olinda, ainda adolescente, no comecinho dos anos oitenta, com suas ruas animadas, várias festas ao mesmo tempo, gente de todas as idades, inclusive idosos e crianças dançando em torno de cadeiras, na frente de suas casas madrugada adentro, tudo muito animado mas sem a chatice da multidão sempre ansiosa. Essa atmosfera eu constatei que já virou passado em Olinda, e há um bom tempo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Doc

Não entendo por que "Garrincha a alegria do povo", de Joaquim Pedro de Andrade, é um documentário tão celebrado. Claro que o simples registro do Rio no início dos anos 60, com aquele povão made in Brasil em estado bruto - desdentado e desnutrido, meio pré-industrial, pré-histórico - foi adquirindo valor com o passar do tempo, assim como algumas cenas do Maracanã superlotado e alguns (bem poucos) dribles e fintas do grande craque, mas como filme, é fraco. E a fotografia... Provavelmente foi feito em preto em branco para soar mais 'artístico', pena. E aquela narração e texto empolados, ridículos. Vive passando na tevê porque o personagem é realmente espetacular, o diretor é badalado, e faltam imagens de arquivo. Ainda bem que Ruy Castro se dedicou ao assunto, e contou a história do jogador na extraordinária biografia 'Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha'.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Forma

No documentário 'Rolling Stones, Exile on Main Street', que tem legendas nas canções, não deixa de ser engraçado ver Mick Jagger, em 1972, no auge da beleza e playboyzice, cantar que está “plantando algodão” em alguma hipotética fazenda no sul dos Estados Unidos. Importante frisar que a música é da dupla Jagger/Richards, e não um clássico do blues. É o que sempre me intrigou: bandas inglesas – grandes e pequenas - nunca tiveram medo de soarem fake e ridículas ao tentar emular o canto (e a forma) da black music americana de raiz, inclusive, às vezes, nas letras. Quase sempre o faziam e fazem com um filtro pop próprio, mas no disco ‘Exile’, todo, e em várias outras passagens esparsas dos Stones, não há essa mediação. De qualquer forma, a receptividade sempre foi a melhor possível, inclusive por parte do cânone americano do gênero – me lembro de uma entrevista de B.B King na tevê, tecendo grandes elogios à banda, assim como outra sumidade que me foge o nome agora. Para mim, canções pop como “You can't always get what you want” e “(I Can't get no) Satisfaction”, que se apropriam da raiz, mas viram outra coisa (incluindo as letras), soam bem mais autênticas. Vai ver King fazia referência exatamente a isso, e não à faceta puramente cover dos Stones, que, de todo modo, como Caetano em "O Ciúme", é válida e bela, ainda que talvez meio fake, quase kitsch.