quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Rosa (1980)

É uma grandes canções de Chico Buarque, apesar de pouco badalada. A longa letra é engenhosa (rimando sempre a última palavra do verso com a primeira do seguinte) e hilária, com ótimas tiradas. A melodia, assimétrica, é só aparentemente simples - se repete como um caracol. A métrica tende para o decassílabo, mas de tônica quebrada. Muito bom.

Ouça em curioso registro de Chico com o cantor e compositor italiano Sérgio Endrigo (cantando em português [desconheço a data da gravação]).

http://www.youtube.com/watch?v=NlN1GvhFJeE

A Rosa
(Chico Buarque)

Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes troca meu nome
E some

E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela
Ói ela
Ói ela, vestida de verde e rosa

A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente

Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa
Abusa, me acusa
Revista os bolsos da calça

A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa
A gueixa
Que coisa mais amorosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa

Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes me chama Alberto
Alberto

Decerto sonhou com alguma novela
Penélope, espera por mim bordando
Suando, ficou de cama com febre
Que febre
A lebre, como é que ela é tão fogosa
A Rosa

A Rosa jurou seu amor eterno
Meu terno ficou na tinturaria
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta, me gusta
Cismou de dançar um tango

Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa, às pampa
Voltou toda descascada

A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota a minha laringe
Esfinge, devora a minha pessoa
À toa, a boa
Que coisa mais saborosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mozart Camargo Guarnieri

A sinfonia nº 3, regida por John Neschling/Osesp, é impressionante. Guarnieri é provavelmente o maior sinfonista brasileiro de todos os tempos - mais do que isso, foi um grande compositor de seu tempo, mesmo com um prenome desta magnitude! Pena eu não ter conseguido nenhum link completo da obra.

Campanha

Lamentável o uso político do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). De novo, em artigo publicado na seção Tendências e Debates, da Folha, o manda-chuva do instituto, Marcio Pochmann, ataca o que seria uma gritante desigualdade no Estado de São Paulo, sem contextualizá-la, mostrando uma visão simplificadora e demagógica da realidade, e utilizando um tom ao mesmo tempo inquisitorial e debochado - algo que não condiz com o cargo que ocupa. Na verdade, trata-se de uma réplica ao artigo em que Manuelito P. Magalhães Júnior (que Pochmann chama de M. Magalhães Jr.), presidente da Emplasa - Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S/A - respondia a um artigo de Pochmann, que já usava o mesmo tom para criticar o governo paulista. O fato de ser ano eleitoral torna a situação ainda mais constrangedora. Na prática, Manuelito derrubou todos os argumentos do atual presidente do Ipea, que usou o nobre espaço da Folha apenas para fazer política partidária, em nome de uma instituição que nem o regime militar ousou interferir politicamente, mas o PT, sim - aguardemos pela publicação da tréplica do presidente da Emplasa. Seguem os links disponíveis (em ordem cronológica) no ótimo Conteúdo Livre - http://sergyovitro.blogspot.com/ -, site que reúne artigos de toda a imprensa brasileira, mesmo para não assinantes.

http://sergyovitro.blogspot.com/2010/06/tendenciasdebates-para-onde-vai-sao.html (15/06/2010)

http://sergyovitro.blogspot.com/2010/07/sao-paulo-nao-se-acomoda.html (26/7)

http://sergyovitro.blogspot.com/2010/08/marcio-pochmann-sao-paulo-desigual.html (18/08)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Apolíticos

Espero estar enganado, mas parece que o Brasil está entrando numa fase em que a escolha da chefia máxima do governo se tornou uma mera formalidade - o detentor do cargo define o seu "substituto", a portas fechadas, e a maioria da população, mesmo sem conhecer minimamente o personagem, referenda a indicação, nas urnas. Teríamos voltado aos piores momentos da República velha, em pleno século 21? Ou será a ressurreição do velho PRI mexicano?

Questão de escala

Gilberto Freyre se dizia um autêntico gênio brasileiro. Tendo a concordar, com a ressalva de que, se for mesmo assim, a quantidade de gênios já nascidos na Alemanha, por exemplo, deve alcançar quatro dígitos, pelo menos. Uma enormidade!

Insight

Você percebe que está ficando velho quando se dá conta de que seus pais eram mais novos (às vezes bem mais novos) do que você é hoje, em vários acontecimentos marcantes de sua infância e adolescência .

Beethoven - imitação de gênio

O primeiro movimento do concerto para piano nº 3, em Dó menor, de Beethoven, poderia ser, tranqüilamente, uma magnífica abertura do nº 28, de Mozart - que obviamente nunca foi composto, já que ele "só" chegou ao 27. É uma espécie de imitação, sim, porque, diferente da primeira sinfonia de Brahms* - que merece ser considerada a "décima" de Beethoven -, esteticamente não se dá um passo adiante. Mas só o fato de que a obra poderia, hipoteticamente, estar entre os melhores trabalhos da última e tão especial fase de Mozart, já é um grande feito, coisa de gênio. Como sabemos que não é o caso, falta a originalidade que Beethoven, ao menos em relação aos concertos para piano, só encontraria (não muito tempo) depois.


* Também a favor de Brahms, conta o fato de ter chegado tão longe logo em sua primeira sinfonia, enquanto Beethoven, já no terceiro concerto para piano, ainda não tinha alçado vôo próprio. Porém, há uma possível explicação: Brahms se lançou na empreitada de compor sua primeira sinfonia apenas na maturidade dos 40 e poucos anos, enquanto Beethoven, mesmo no concerto nº 3, ainda não tinha chegado aos 30 (a obra foi composta em 1800).

PS: há quem diga que a "verdadeira" 10ª de Beethoven é a segunda de Mahler... Ainda quero voltar ao assunto, que é fascinante.

Ouça com Nelson Freire ao piano e regência de Roberto Tibiriçá:

http://www.youtube.com/watch?v=b4cROUKAQSc (1º Mov. - primeira parte)
http://www.youtube.com/watch?v=j0IA6UUxk0Q (2 Mov. - segunda parte parte)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

R.E.M - Imitation Of Life

Semprei achei brega qualquer tentativa de vídeoclipe, mas sempre há exceções, como é o caso aqui. http://www.youtube.com/watch?v=_pd0Qq_kRU4
De qualquer forma, a canção é linda e nem precisaria dele.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Antiqua

O programa “Volta ao Mundo em 80 Tesouros” (2005), da BBC, é muito bom - por sorte, consegui ver alguns episódios na TV Cultura (parece que o canal Futura também o exibiu). O apresentador, Dan Cruickshank, figuraça, é historiador e arquiteto, e está muito à vontade na função de repórter – com charme e erudição, mostra um grande painel das obras-primas da Antiguidade. As seqüências no Egito (não sabia que os sarcófagos podiam ser tão coloridos), Ásia Menor (Rota da Seda, Bukhara, ruínas de Persépolis) e Norte da África (ruínas de Leptis Magna, na Líbia) são espetaculares.

Divagação

Mesmo com a chatice dos aeroportos (mas tem quem goste deles), o ato de viajar, se possível para bem longe (como preferia Baudelaire) continua a ser uma experiência nada banal. E acho que será assim até que possamos todos nos locomover, por conta própria, a velocidades bem maiores, talvez próximas à da luz – trabalhar em Xangai e dormir em casa, no Brasil etc. Se isso acontecer em até não muito tempo (250, 300 anos), as línguas tenderão a se fundir numa salada em que estruturas do inglês e mandarim - já bem modificados pela ação do tempo - devem se sobressair, por serem as mais faladas. As culturas também sofrerão uma fusão radical, só que bem mais difícil de imaginar - ainda estamos nos primórdios da humanidade.