segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Foco

Ainda há muito preconceito da crítica brasileira com a TV, principalmente em relação aos atores desse meio. Alguém duvida que Juliana Paes poderia brilhar no cinema, se fosse dirigida, digamos, pelo chinês Wong Kar-wai? Eu não. Juliana, possivelmente, teria feito melhor que a insossa Norah Jones, em Um Beijo Roubado (2007). Mesmo nas mãos de um Karim Amouz - um dos nossos cineastas mais "festejados" -, a julgar pelos seus filmes, difícil imaginar que ela atuasse sem os cacoetes típicos (e necessários) da dramaturgia das novelas.
O problema do cinema brasileiro não é falta de potenciais estrelas, mas de diretores que saibam de fato dirigir atores e extras, condição essencial para um filme aspirar a ser grande.

sábado, 25 de dezembro de 2010

De pretensão e água benta

Há uma passagem de Beira-Mar, do grande Pedro Nava, em que o memorialista cita uma frase do amigo Mário de Andrade sobre a possível influência dos poetas simbolistas no modernismo brasileiro. Ei-la: "Não imitamos Rimbaud. Nós desenvolvemos Rimbaud. Estudamos a lição de Rimbaud"*. Digo eu: quanta pretensão! Quem era Mário de Andrade para se comparar (e superar!) um dos maiores poetas de todos os tempos, em qualquer língua? Mas esse tipo de postura era algo bem típico do escritor paulistano, que superestimava o valor da sua obra, no que mostrou imenso talento, já que esta continua a ser superestimada no Brasil.

* a frase foi citada pelo jovem Carlos Drummond, no artigo "Poesia e religião", para A Revista. Claro que o futuro grande poeta se sentia devedor da obra de Mário, como de resto praticamente toda a Geração de 30. Mas, esteticamente, principalmente em poesia, Mário não era tudo isso. Aliás, não era nada disso...

Globalizou

O Natal está virando moda no oriente e em alguns países de religião islâmica. Não deixa de ser irônico, depois de tantos ataques à civilização ocidental ao longo desta década que está acabando - nesse sentido, Bin Laden quebrou a cara. Viva o Natal, feliz Natal!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Solstício 2

O verão começa oficialmente às 21h38 desta terça-feira, horário de Brasília. Agora, em São Paulo, são quase duas da tarde (13h00, se ignorarmos o horário de verão), a umidade está baixa (40%), e faz 32ºC. Bom sinal, que venha o calor!

PS: uma dúvida: a nova estação começa ao mesmo tempo (só mudando obviamente a hora local em cada fuso) em todo o hemisfério sul? Acho que sim.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Novelas

Parece que a reprise da novela Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga, está bombando na TV paga, e boa parte da audiência seria formada por jovens. Eu a acompanhei na época, era quase inevitável para quem vivia no Brasil. Esse sucesso é interessante, por dar uma pequena mostra, para quem tem menos de 30 e poucos anos, do quanto era profunda essa inevitabilidade.

Primeiro porque as novelas podiam ser muito boas, como foi o caso de Vale Tudo; segundo porque, sem internet, redes sociais, celular, games e TV por assinatura, a Globo só competia com os demais canais abertos, e digamos que eles não conseguiam ser muito "competitivos" - Tupi (depois SBT), Bandeirantes, Cultura, Record ("a pior" era o seu apelido!*), Gazeta e Manchete (a partir de 1983) até exibiam bons programas, mas que eram esporádicos - semanais, mensais ou até anuais**. Ninguém podia com as novelas diárias da Globo - a das oito batia nos 80% de audiência - e, com o tempo, nenhum canal sequer tentava concorrer para valer, até que a TV Manchete começasse a produzir suas próprias novelas, que conseguiram incomodar a líder por algum tempo, mas não muito.

Mas quero recuar um pouco mais. Nos anos 70 e até o finalzinho dos 80 (com Tieta), as novelas da Globo e o Jornal Nacional detinham, juntos, provavelmente a maior audiência fidelizada do mundo*** - o canal já comandava uma indústria relevante no entretenimento e jornalismo, o que até destoava da jequice brasileira da época em outras áreas, como o cinema. Não é à toa que o Rio, sede da emissora, era a cidade mais cosmopolita do país - São Paulo nem sonhava desfrutar do atual papel de cidade hegemônica. Nesse universo, Boni, Daniel Filho e Armando Nogueira eram reis, e Roberto Marinho um tipo de deus da terceira idade.

Quando, em 1975, Roque Santeiro, de Dias Gomes, foi ridícula e inesperadamente censurada pelo regime militar, Janete Clair criou a toque de caixa Pecado Capital, uma obra-prima de argumento e execução - o grande Paulinho da Viola teve apenas um fim de semana para compor a música-tema, que se tornou imediatamente um clássico da MPB ("dinheiro na mão é vendaval..."). Espantoso.

O declínio seria uma questão de tempo, e ele começou já nos anos 90, muito suave (mesmo assim, em 1991, Gilberto Braga escreveu, em minha modesta opinião, uma das melhores novelas da história, O Dono do Mundo, mas sua audiência não foi das melhores, uma pena). Tardiamente, Senhora do Destino (de 2004), de Aguinaldo Silva, se mostrou cativante e obteve grande audiência (média de 55%,), mas soou como o canto do galo.

* Ainda é!

** Segunda (ou Terça) Sem Lei, da TV Bandeirantes, que o diga. Era bem legal.

*** A audiência da novela das oito, hoje, mal ultrapassa os 40%. Já a situação do JN é pior: nos final dos anos 80, detinha, em média, 62%, e atualmente, apenas a metade. Mesmo assim, a liderança da Globo no horário nobre continua folgada - a julgar pela programação da concorrência em sinal aberto, ainda bem.

Finotti

A matéria de capa da revista Serafina* sobre a cantora Amy Winehouse, escrita por Ivan Finotti, de tão boa, deveria ser incorporada aos cursos (quase sempre horrorosos) de jornalismo, país afora. É bastante informativa sem ser burocrática ou óbvia. Tem ritmo e um tom coloquial de primeira classe, como nos bons diálogos do cinema, que fluem e parecem fáceis de criar, mas são dificílimos. O jornalista mostra respeito pela personagem, sem se furtar de debochar do que merece ser deboxado nela. Não é jornalismo gonzo, porque o foco, a informação estão lá, bonitinhos, sem pretensões de literatices. Está acima do gonzo, porque a matéria tem estilo, mas tudo em prol do melhor jornalismo.

*Folha de S. Paulo de ontem.
Para assinantes: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/serafina/sr1912201010.htm

domingo, 19 de dezembro de 2010

Pois é

Em editorial e título na primeira página, a Folha de S. Paulo faz um elogio rasgado à Era Lula, que vai chegando ao fim neste final de 2010. Respectivamente: "Saldo favorável" e "Lula entrega país melhor, mas imposto é recorde"*. Nada a questionar**, mas o governo Fernando Henrique Cardoso fez bem mais em relação à situação econômica, social e política que herdou em 1994, e não me recordo de nenhum elogio perto do final do seu segundo mandato, em dezembro de 2002 - nem da Folha nem de nenhum outro veículo.

Só o fato de ter acabado de vez com a inflação, reerguido o salário mínimo, além das (infelizmente tímidas) privatizações e saneamento do sistema bancário, já seriam motivos mais que suficientes, mas só se lembrava do "apagão" - pecha que foi devidamente amplificada por Lula (e Duda Mendonça), que não pode nem nunca pôde reclamar da grande imprensa, ainda que sempre o faça, com as intenções autoritárias de sempre.

Deve ser porque, naquela época, pegava mal elogiar. Melhor assim, mas que isso seja fruto de um amadurecimento da crítica, e não de preferências ideológicas da hora.

* Criticar o aumento dos impostos - como são implacáveis esses jornalistas nos anos Lula, hehe!

** As instituições sofreram seguidos ataques e não passaram imunes - nesse sentido, o país piorou.

Harrison

Sei que é chover no molhado, mas que canção inacreditável é While My Guitar Gently Weeps (1968), ouço agora. O início cortante. A melodia sem floreios. A voz de George, que não sugere felicidade nem desespero, mas resignação. O solo de Eric Clapton, um dos pontos altos da guitarra em todos os tempos. Tecnicamente é uma das duas ou três melhores dos Beatles, senão for a melhor.

http://www.youtube.com/watch?v=F3RYvO2X0Oo

sábado, 18 de dezembro de 2010

Lá vêm eles!

Numa resenha* para o Guia da Folha, sobre a monumental biografia de Hitler, de Ian Kershaw, Francisco Alambert, que também é historiador e leciona na USP, comete uma dessas típicas gracinhas que a esquerda festiva adora promover. Depois de enaltecer justamente o trabalho do britânico (sempre eles), não sem antes, embasado em conceitos marxistas, criticar alguns pressupostos do autor, Lambert, no último parágrafo do texto, fuzila. "Numa época como a nossa, em que colunistas de direita povoam os jornais e a internet, é preciso entender como demagogos criam sua mistificação, com resultados terríveis. Esta biografia do maior deles é imperdível".

Para começar, onde estão os tais colunistas de direita nos jornais? Na Folha é que não - seu colega  da USP, Vladimir Safatle, recém-contratado justamente como colunista do jornal, é uma voz que, em suas próprias palavras, pretende mostrar “como o pensamento de esquerda é capaz de sintetizar problemas novos e encontrar respostas inesperadas para os antigos". E quanto aos demais colunistas da Folha, quem fala em nome da direita para esse "novos problemas e respostas inesperadas"? E quanto aos outros véículos? E na internet? Neste caso, talvez Alambert, pensando em Reinaldo Azevedo, esteja fazendo confusão: os blogs e sites de esquerda, muitos financiados com dinheiro público, também são bem mais numerosos do que os que estão mais à direita, mas a audiência destes, muito em função dos bravos e brilhantes Reinaldo e Augusto Nunes, é incomparavelmente maior - (como dizia o refrão anti-Rede Globo, o povo não é bobo).

Mas voltemos à idéia do parágrafo aqui citado. O historiador da USP, ao reclamar (infundadamente) dos blogs e colunistas de direita que povoariam (podia ter escrito infestariam, a idéia é essa) os jornais e a internet, e logo em seguida citar "o maior de todos os demagogos", Hitler**, é claro que ele tenta assim jogá-lo no colo da direita, associando-a com toda a barbaridade genocida comandada pelo facínora alemão, como fingindo desconhecer (é historiador!) que o nazi-fascismo está repleto de vasos comunicantes com o comunismo - são duas faces da mesmíssima moeda da utopia totalitária. Para que essa idéia torta se mantenha em pé, Alambert tem de ignorar o legado de Stálin, Mao, Pol Pot, Fidel e tantos outros líderes da esquerda, de maior ou menor escalão. Afinal, eles não conseguiram o status de "o maior de todos os demagogos", certo? Então merecem o nosso perdão! Não se trata de comparar quem  teria seria o líder mais nefasto para a humanidade - Hitler merece a fama de número 1 -, mas de identificar esse tipo de impostura, cheio de dissimulações, que é uma das marcas registradas da intelligentsia de esquerda, não só brasileira, e que continua muito atuante por aqui, já abarcando novas gerações de "professores da USP". 

Alambert é professor de história, mas faz proselitismo ideológico ao selecionar o que deve e o que não deve ser dito e escrito - o velho esquema de sempre. Então ficamos assim: todo e qualquer indíviduo que não se considerar um esquerdista - que sempre pensa no bem da humanidade - poderá estar no mesmo saco que ninguém menos que Adolf Hitler. Mas os milhões de crimes perpetrados por líderes da esquerda jamais serão associados aos militantes da nobre causa humanitária. ARGH.

Falei alguma novidade? Claro que não! O problema é que esta pérola recente soa não mais como sintoma, mas como fato consumado neste Brasil pós-Lula. "Eles" venceram!!

Para encerrar, um desejo (quase impossível) para próxima década: por uma universidade brasileira com menos Marx (mal lido e mal ensinado) e mais Tocqueville.

* História e fantasmagoria, do Guia da Folha especial sobre livros, discos e filmes.

** "Generoso", Lambert não cita Mussolini, mas depois de Hitler, nem precisava, não é?!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amigo Secreto

No mínimo devia ser proibido em lugares públicos.