terça-feira, 13 de abril de 2010

Semelhança

Ou estou ficando louco, ou o final do concerto para violoncelo número 2, em Ré maior, de Haydn, que ouvi há pouco, possui parte da melodia mais famosa da Marselhesa. E foi composto em 1783, nove anos antes, portanto, do hino francês, que é de 1792. Mas pesquisando a respeito, não achei nada que fizesse referência a isso - homenagem ou plágio. Vou tentar ouvir de novo.

sábado, 10 de abril de 2010

Sessão coruja ok

O superclássico Real Madrid X Barcelona de hoje, pelo Campeonato Espanhol (sensacional duelo de Cristiano Ronaldo com Messi), será iniciado às 22h00, horário local (e de verão). E mesmo considerando que seja num sábado, tem tudo a ver com o ritmo madrilenho e de boa parte do país - alucinante e notívago. Na Champions League, os espanhóis possivelmente seguem o horário das 20h45 porque são obrigados - acredito que, se pudessem, jogariam em casa tb às 22h00 pela Champions, no meio de semana. Em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, seria inviável que partidas importantes noturnas fossem disputadas muito cedo (antes das 21h00), em função dos congestionamentos e do expediente de trabalho - e antes que alguém diga que o Brasil não se restringe às suas metrópoles, lembremos que os principais clubes foram fundados nessas metrópoles, e naturalmente, o grosso de sua torcida vive nelas. Não vejo motivo para tanta reação ao horário das 21h50, imposto pela TV Globo apenas às quartas-feiras - concordo que seria melhor um pouco antes, entre às 21h15 e 21h30, por exemplo, mas é preciso admitir que isso não faria lá muita diferença. Até o final dos anos 1980, o Jornal Nacional durava exatamente meia hora (das 20h às 20h30), e as novelas eram bem mais curtas. Ironicamente, naquela época a TV não dava muita bola para o futebol - não havia transmissões constantes no meio de semana, longe disso. Mas aos poucos, ambos os programas foram estendidos, e ao mesmo tempo o futebol, definitivamente "descoberto" e incorporado na grade de programação da emissora. Para manter a transmissão dos jogos em sinal aberto, e enquanto os direitos de exibição pertencerem à Globo, é inócuo e demagógico exigir uma mudança radical. PS: acho que vai dar Real Madrid.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dois filmes

Não é que "Insolação" (Felipe Hirsch e Daniela Thomas) seja um filme pretencioso. O problema dele é ser ridículo. Já "Aproximação" (Amos Gitai) é um tanto esquemático, mas bem realizado. Ambos têm três estrelinhas na seção de filmes da Folha de S. Paulo, sei lá por quê.

Armando Nogueira

Armando Nogueira foi um grande personagem da imprensa brasileira. Fez carreira por mérito e talento próprios. Em seus textos, apesar de romântico inveterado, cultivava a lucidez, por isso duvido que ele aprovasse boa parte dos textos recentes que saíram na imprensa esportiva, a pretexto de homenageá-lo, por seu passamento. O tom sobre a sua obra foi exagerado, de louvação - foi mais de uma vez comparado a Nelson Rodrigues, nada a ver. Nelson foi um gênio que podia ser tudo, menos piegas, e a pieguice de fato dava as caras, aqui e ali, nas colunas de Nogueira sobre futebol, apesar dos belos achados e do seu texto elegante. E sim, ele teve o mérito de ajudar a criar o formato do Jornal Nacional, mas enquanto o comandou, por 20 anos (até início de 1990), o jornalismo da Globo, ainda que disparado o mais bem feito em relação à concorrência (como é até hoje), era sisudo, conservador e exageradamente voltado para o Rio de Janeiro (hoje é São Paulo). Tudo bem que isso refletia uma época do país, mais careta, mas Armando Nogueira era o primeiro a sair em defesa desta postura retrógrada, que descartava, por exemplo, uma apresentadora mulher para o JN, porque "o brasileiro ainda não estaria preparado", isso eu li numa entrevista dele para a revista Playboy, já no final dos anos 1980 - acho que em 88 - entre outras pérolas. Uma delas, a de que o noticiário mais importante do Brasil não poderia ultrapassar os 30 minutos, de jeito nenhum, tb por 'culpa' de um suposto conservadorismo do telespectador, que se 'cansaria'. Há também o episódio da não cobertura do início do movimento Diretas Já, que foi uma atitude bizarra da TV Globo, e sob sua batuta - não vale jogar a responsabilidade nas costas de Roberto Marinho, já que Nogueira, como manda-chuva do jornalismo da emissora, poderia ter pedido demissão, não era obrigado a fingir que nada acontecia. De qualquer forma, foi um jornalista importante, e justamente por isso dispensa essa camaradagem subserviente, que se aproveita do momento para bajular e se promover. Os que de fato privaram de sua convivência não precisam sair por aí gritando, e de fato não estão fazendo isso.

sábado, 3 de abril de 2010

PS Caetano e Gal

It´s a long way, You don´t Know Me, Como Dois e Dois, Você Não Entende Nada, Maria Bethânia, De Noite na Cama, Nine Out of Ten e London, London são reconhecidas - mesmo para os muitos e crescentes não fãs de Caetano Veloso - como belas composições do artista em seu exílio londrino, assim como a sua interpretação do clássico Asa Branca, no mesmo período. Cinema Olympia – composta pouco antes do exílio, e logo gravada por Elis Regina, e Aracaju, na voz de Caetano (dele e Vinícius Cantuária, 1979) idem. Tudo acessível no You Tube, com exceção da linda Tapete Mágico, já de 1981, cantada por Gal Costa, que só localizei na Rádio UOL (sem maiores exigências, bom saber). Já as versões originais de Caetano em A Grande Borboleta, Two Naira Fifty Kobo, Alguém Cantando - todas de 1977 - são raras na rede e dependem da pesquisa e do dia, ou seja, de sorte, mas valem a tentativa. Por fim, Gal cantando Já Era Tempo (1979), inusitada parceria de Ary Barroso com Vinicius de Moraes, de 1962 (a dupla compôs mais alguma canção?), é lindo. E ela não faz menos bonito em Ressussita-me, que já cheguei a achar brega, hoje não mais - sua voz de cristal comove.

Filme

Com toda a certeza, “Com a Bola Toda” (Dodgeball: A True Underdog Story), com Ben Stiller e Vince Vaughn, não concorreu em 2005 a nenhuma Palma de Ouro em Cannes, mas foi um dos filmes mais engraçados que vi na TV nos últimos tempos (e dublado). O fato de ter um jogo como a queimada (!)como elemento-chave já valeria uma chance, mas o filme tem cenas engraçadíssimas, que o justificam inteiramente. Boa escolha da Fox Brasil para um Sábado de Aleluia.

terça-feira, 30 de março de 2010

Gênios tb?

Que figura incrível foi o holandês Hans van Meegeren (1889 — 1947), o maior falsificador de Vermmer - personagem que daria um filme e tanto, se é que já não foi feito. Li com prazer a biografia do pintor, "Eu Fui Vermeer", do irlandês Frank Wynne. De vilão (chegou a ser preso por suspeita de colaborar com os alemães durante ocupação que seu país sofreu na Segunda Guerra), foi alçado a herói por ter conseguido provar que na verdade enganara autoridades alemãs, vendendo-lhes falsificações perfeitas, mas morreu do coração logo depois, sem ter tido tempo de aproveitar a notoriedade - mas já tinha acumulado fortuna. O maior feito de Meegeren foi ter forjado, nos anos 1930, um famoso quadro que se perdeu ou pode nem ter sido pintado por Vermmer, mas que foi dado por autêntico e festejado pela crítica especializada, ou seja, seria como se um músico do século 20 se aventurasse a compor uma cantata perdida de Bach, por exemplo, baseado apenas em textos sobre ela (sem partitura, claro), e essa falsa cantata fosse considerada autêntica e digna de ter sido criada pelo gênio alemão. Ou inventasse um fictício sétimo concerto de Brandenburgo, à altura da obra-prima original. Isso denotaria também genialidade do falsário, ainda que, evidente, lhe faltasse o carimbo da originalidade, por ter trabalhado a posteriori. Mas o assunto do fake é sem dúvida fascinante e também foi abordado com brilho por Orson Welles em “Verdades e Mentiras”, filmaço de 1974, sobre o qual quero falar em outro post.

Ficar

Logo que terminei de ler “A Arte de Viajar”, de Alain de Botton, há uns seis ou sete anos, fiquei contente e aliviado, porque, com exceção da alta juventude, quando qualquer pretexto era válido para viajar ("para qualquer lugar! qualquer lugar! desde que eu saia deste mundo!", Baudelaire citado por Button), para mim elas quase sempre precisam de um significado, de um pequeno motivo que seja - por mais subjetivo - para se justificarem. E, de certa forma, é o que fala Botton, com erudição e poesia – seu livrinho é uma pequena jóia. Mas, dito isso, hoje me deti num avião que já manobrava no céu, provavelmente para a rota da ponte aérea SP-Rio, que me fez ter uma enorme vontade de pegar um táxi para o aeroporto e pegar uma carona para qualquer lugar a não menos que umas 18, 20 horas de vôo. Passar uns 10 dias nesse destino incerto e voltar de navio, para ler com tranqüilidade os livros que já se acumularam. Mas como nos ensina Botton, essa atitude tenderia a cair no vazio, portanto, fiquemos por aqui e não percamos mais tempo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pacaembu

O grande barato do futebol é que uma partida pode ficar no zero a zero. Esse receio está sempre no ar, principalmente quando estamos no estádio – no fundo preferimos que nosso time leve um gol e torcer pela reação, a sair com um placar em branco, isso ninguém confessa, mas arrisco que possa ser um desejo secreto de quase todo torcedor, a não ser os fanáticos, porque os chatos sempre fazem parte de qualquer paisagem. Por isso vibramos tanto quando e se sai o gol – pelo nosso time e por nós mesmos, já que acreditamos que isso seria possível e acabou sendo, mas podia simplesmente não acontecer. É interessante que um esporte comporte o conceito do zero, do nulo tão deliberadamente, acredito que seja um diferencial do futebol, entre vários outros, como a regra do impedimento, de uma simplicidade complexa (ou vice-versa). Paulo Francis dizia freudianamente que o esporte (ou especificamente o futebol, não me lembro agora) consegue ser tão atraente e popular porque nos traz de volta a sensação de que o tempo não está passando, como quando éramos crianças. Faz todo o sentido, porque enquanto a partida está em andamento, é como se nada mais interessasse ou até mesmo existisse. Ontem estive no Pacaembu e presenciei a vitória do meu time por 4 a 3 contra um tradicional rival (que adota o nome de nossa cidade, quanta indelicadeza!), com direito a gol contra deles nos acréscimos, o gol da nossa vitória. Como quase sempre acontece, fui ao estádio sozinho, porque gosto de trocar idéias com desconhecidos durante a peleja - são encontros que surgem com naturalidade e duram aquele momento, às vezes com intensidade surpreendente. O apito final foi daqueles happy ends que hoje raramente acontecem mesmo nos filmes de Hollywood - felicidade coletiva e apoteótica, por cinco ou seis minutos, e já é muito, não se pode exigir mais. Choveu quase o tempo todo, e a sensação de um teatro a céu aberto é sempre reconfortante e inesquecível – só não vale zero a zero.

domingo, 28 de março de 2010

Ética

Toda quinta-feira à noite, a TV Cultura exibe o programa “Ética”, apresentado, claro, por Renato Janine Ribeiro, titular de Ética e Filosofia Política na USP, e intelectual que privatizou o assunto no Brasil, ao menos na grande imprensa. O programa é de um personalismo que chega a ser engraçado – closes do professor de vários ângulos vão se acumulando, e dá-lhe ‘flagrantes’ em primeiro plano de Janine andando pelo centro de São Paulo, no meio da multidão, de costas, de frente, de lado, a caminho de mais uma entrevista com pessoas selecionadas a dedo para ilustrar fatos que já tinham sido escolhidos de antemão. O programa parece ter como proposta seguir o velho contraponto de viés marxista, de antagonizar as classes sociais - até aí nada de errado, a priori, o que incomoda é o tom e o formato do discurso, meio gastos, de tentar ser um tipo de voz dos oprimidos contra o sistema. Parece que a idéia seria tirar o professor de ética da calmaria das salas de aula e levá-lo a tomar contato com questões éticas dos cidadãos no dia a dia, mas o que aparece na tela é um chororô que não faz justiça aos desafios que as pessoas têm de enfrentar para sobreviver. No final, soa como se fosse uma radiografia do Brasil de 1978, por exemplo. Um dos episódios que vi tratava da liberdade no ambiente de trabalho, um assunto que renderia um tratado, mas que no programa é conduzido de forma a criticar a autoridade, a rigidez e toda uma série de normas chatinhas que fazem parte da rotina de qualquer escritório, quando não é o caso de trabalharmos no Google, ou noutro lugar mais descolado no Vale do Silício. O tom, como dificilmente seria diferente, é de crítica, mas não decola, porque as queixas dos entrevistados parecem ter sido sopradas antes da gravação (e quase restritas a enfadonhas questões trabalhistas, e não de cunho individual, que resultaria em algo mais interessante, autêntico), e as pontuações de Janine sobre ética não dão liga, ficam deslocados e acentuam o fake de cada conversa. Teria sido mais interessante um depoimento do próprio Janine sobre o ambiente de trabalho de sua época como diretor de avaliação do Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).