segunda-feira, 15 de março de 2010

Não

Já há um bom tempo um amigo fez elogios à seção ‘esquina’, da revista piauí, sugerindo que eu podia gostar, principalmente quando é João Moreira Salles quem assina alguns dos textos. Valorizo sua opinião, mas resisti, porque na única vez que tentei ler a revista, logo que saiu, detestei, pelo tom escancaradamente freak e pretensioso. Além disso, achei o nome (grafado em minúsculo), uma afetação meio besta e esnobe, tirando onda com um Estado que por acaso conheço e acho interessante – no passado, quando Nelson Rodrigues tirou seu sarro do Piauí, foi com uma abordagem franca e muito engraçada, já esse título dissimulado seria o próprio anti-Nelson Rodrigues. Bom, hoje comprei um exemplar, li a tal seção - não havia artigos de Salles -, todo o resto, e tudo igual. Tô fora.

domingo, 14 de março de 2010

Irreversível

Entrevista de Humberto Eco no novo caderno Sabático, do Estadão, prevendo que o livro sempre existirá. Considerando que, segundo informação do jornal, o célebre pensador e romancista italiano possui quase 50 mil volumes – mais que os 45 mil de José Mindlin – acho compreensível essa postura, mas penso, no entanto, que ela não se sustenta depois de uma análise menos apaixonada. É como se, pelo fato de uma invenção ter sido tão boa a ponto de durar 500 anos, ela tivesse que durar outros 500, ou toda a eternidade, o que, no caso de Eco, só pode ser interpretado como uma idiossincrasia, uma boutade. O fato é que os livros ainda são imbatíveis, mas isso não significa que essa situação seja imutável. Como já abordei em outro post, existe uma urgência pelo aumento exponencial da velocidade de transmissão de dados na internet, além da capacidade de armazenamento e da bateria dos equipamentos. Precisamos multiplicá-las por 10 mil, 100 mil, um milhão, para que apenas comecemos a penetrar na era digital de fato. Dito isso, estamos evoluindo, e o kindle e vários formatos de livro digital já representam um passo nesta direção. Pequena, por isso as obras publicadas em papel ainda levam muita vantagem, é inegável. Mas alguém tem dúvida de que, num futuro próximo – ou nem tanto – quando o ato de ligar ou desligar um equipamento for instantâneo ou desnecessário, quando a velocidade de transmissão for elevada exponencialmente, com bateria ilimitada, qualidade de imagem e áudio beirando a perfeição etc., enfim, num cenário destes, por que considerar que o livro não se tornaria obsoleto e continuaria a levar vantagem? Para Eco, a internet representa um perigo porque contempla tudo e depende da seleção do internauta para separar o joio do trigo. Mas não foi sempre assim? Nós chegamos aos livros por orientação e curiosidade, o mundo digital, por sua vez, facilita o acesso de tudo, mas esse tudo inclui as melhores obras também. O fim do livro é uma questão de tempo, talvez de muito tempo - várias gerações - mas acho bobagem essa pregação toda contra a publicação eletrônica – certamente a leitura, o jeito de ler, sofrerá uma modificação, devido a interação com outras mídias, mas nada mudará, isso sim, o fato de que seres humanos continuarão a querer produzir textos por muito tempo ainda – não eternamente, diga-se. Não serão livros, mas isso não fará diferença para quem for contemporâneo desta nova realidade. O livro não é uma tesoura ou uma colher, como quer Eco - já foi mais do que isso, mas hoje, depois de mais de 500 anos, sua utilidade começa a sofrer concorrência, e nada de errado com isso.

Não é por aí

Incrível o argumento recorrente para tentar aliviar a postura antidemocrática de Lula, em sua recente visita a Cuba, coincidindo com a morte do dissidente que fazia greve de fome. Alegam que, como visitante, ele estaria impedido, por protocolo diplomático, de se manifestar contra o cerceamento das liberdades individuais existente na ilha. Citam a China, um estado igualmente totalitário, que também as transgride em seu território – incluindo o Tibete – sem que isso provoque a mesma reação etc. Esse argumento é absurdo por vários motivos. Um deles é que, mesmo que fosse verdadeiro - e não é - nada obrigava Lula a sair em defesa da repressão cubana, que persegue e mata cidadãos que ousam apenas discordar do rumo político do país. Mas o principal é o fato nada prosaico de que Cuba faz parte da América Latina, e o Brasil, cuja política externa é escancaradamente focada na liderança regional, não poderia abrir mão - baseado em sua própria Constituição - da defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos como valores universais. Esse é o ponto. O governo Lula deseja uma liderança sem que esses valores sejam inegociáveis, suas ações sugerem isso, infelizmente. Mas, voltando ao argumento 'China', além da dependência que nossas exportações têm da demanda chinesa, o fato é que este país se transformou numa superpotência econômica, e está longe de nossa zona de influência, por isso não seria razoável uma crítica contundente em uma eventual visita à China, porque soaria desproporcional e apenas ridículo - pragmática e cinicamente, podemos deixar este abacaxi para os Estados Unidos, como de fato deixamos. Mas o argumento só valeria se for para lavar as mãos para o que acontece em Cuba. Nada a ver.

sábado, 13 de março de 2010

Presença

Se o Rio não tivesse o morro Dois Irmãos, acho que seria um pouco menos obcecado pela cidade. Mas tem.

Confusão

Virou moda criticar fulano ou beltrano com o argumento de que este ou aquele se leva a sério. Acho estranho. Para fazer sentido, falta um advérbio. Uma coisa é se levar muito ou muuuuito a sério, o que tende a ser de fato ridículo, mesmo quando se trata de um grande em qualquer campo – ainda mais quando não é o caso... Mas outra é se levar a sério, ponto. É importante se levar a sério, muitas vezes crucial – quem não o faz pode simplesmente não sobreviver.

Horário de verão

Já faz três semanas que acabou, mas me deu vontade de falar do horário de verão. Não gosto. Acho uma imposição desagradável. Me irrita a obrigação de adiantar uma hora do meu relógio, porque não é uma mudança qualquer, ela afeta nosso relógio biológico. Além do mais, acho meio ridícula a mensagem sublimada de que com isso teríamos mais tempo para usufruir do verão - um tipo de compensação ao belo gesto cívico -, como se todos tivéssemos a obrigação de passear ou pedalar no fim da tarde, “aproveitando a estação”. Também não ajuda saber que a mudança é inútil – a economia é irrisória, e não se justifica num país com o potencial energético como o brasileiro. Mas podia ser pior - na Europa Ocidental o horário de verão dura uma eternidade, praticamente seis meses. Enfim, fico feliz quando o período acaba, e recebemos aquela hora de volta. PS: o verão já está no final, mas as temperaturas voltaram a ficar lá em cima em SP, com máximas em torno dos 32°C, e mínimas que não ficam abaixo de 22°C - precisamente agora, 18h08, faz 30°C. A novidade é uma umidade do ar preocupantemente baixa em boa parte do dia, inferior a 35%.

Neymar

Neymar deveria ser convocado para disputar a Copa do Mundo da África. Além do jeitão de supercraque, tem aquele entusiasmo que é difícil ver nos jogadores que atuam na Europa, mesmo os jovens, incluindo os brasileiros. Aliás, a Copa do Mundo nunca teve na Europa o mesmo apelo que tem no Brasil e Argentina, e nos últimos 15, 20 anos, com a globalização e a enxurrada de jogadores de toda a parte que passou a jogar lá, menos ainda - a prioridade dos torcedores é com seus seus clubes, a paixão pela seleção nacional é secundária, com a possível exceção da Espanha, que nunca conquistou um caneco e atualmente tem um time forte. Isso obviamente se reflete na postura dos jogadores que atuam no continente, e em relação aos brasileiros, mesmo tendo uma torcida fanática por sua seleção, não é diferente. Por isso, um craque como Neymar - mais um fenômeno à vista - seria tão importante: além de ainda não ter sido 'contaminado' com as eurochatices, está em grande fase, entrosado com Robinho e em franca evolução - mesmo que estacionasse no nível em que se encontra hoje, já seria um fora de série, mas é tentador especular que sua evolução pode não ter limites claros, talvez o de um Pelé - não acho isso impossível, pelo pouco que o vi jogar. Aliás, existe o perigo de que esta possibilidade não se concretize, com a provável transferência do jogador para algum grande clube europeu: os craques que viajam, principalmente os muito jovens, não costumam suportar as novas e chatas obrigações táticas defensivas que passam a ter nos novos times, o que prejudica seu desempenho. Foi assim com tantos, mas me vem à cabeça um caso recente, o de Breno, ex-São Paulo, que aos 18 anos pintava como um extraordinário líbero, mas logo foi negociado com o Bayern de Munique, e hoje, aos 20, não atua e pode ter se transformado num jogador comum, o que seria uma lástima. Penso que os seis ou sete superclubes europeus prestam um desserviço ao futebol, ao fazer questão de ter 15 ou 16 craques no elenco, pois é inevitável que muitos irão sobrar e ficar na reserva, milionários mas desmotivados. E é triste presenciar o declínio de grandes jogadores que, ainda jovens - se acomodam e praticamente se aposentam justamente no momento em que poderiam chegar ao ápice de suas carreiras. Espero que com Neymar não seja assim. Aliás, como me disse um santista ilustre, devemos investir na utopia e imaginar o jovem craque santista jogando no Brasil por muitos e muitos anos ainda. Pena que nem meu filhinho de três anos conseguiria acreditar nisso por mais de cinco minutos...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Na mosca

Excelente editorial na Folha de S. Paulo de hoje, "Passou do limite", a respeito das declarações recentes de Lula, nas quais ele equipara presos políticos (dissidentes cubanos) a presos comuns (no Brasil). Muito bem escrito e sem meias palavras, seleciono um trecho especialmente inspirado: "Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades (...)." Bom, e com estilo.

Para esclarecer

Mesmo com um dia atribulado, vou gastar 15 minutos aqui para comentar o que acho do tal critério de desempate favorecendo o gol marcado fora de casa. Acho que se trata de uma idéia que posa de esperta, mas que na prática é injusta e contraproducente, já que estimula a mediocridade em detrimento do talento. Infelizmente a adotamos no Brasil, no que parece um caminho sem volta. Anteontem, um exemplo clássico. Segundo jogo das oitavas de final da Champions League. Jogando em seu estádio, a grande Fiorentina, de passado glorioso e presente modesto, consegue bater o milionário Bayern de Munique, dos craques Ribéry e Roben, por 3X2, mas está eliminada da competição, porque perdeu o primeiro jogo por 1X2, na Alemanha. Quer dizer, com o mesmo saldo de gols, prevaleceram os dois gols que o time alemão conseguiu fazer fora de casa, um a mais que a Fiorentina, no mesmo critério. Mas eu pergunto: o que é mais difícil e bacana em uma partida de futebol, seja ela decisiva ou não? Fazer dois gols fora de casa, perdendo, ou três, vencendo?? Claro que é vencendo e fazendo mais gols! Num mata-mata, deveria-se premiar (respeitando o saldo) o time que faz mais gols numa mesma partida. Por isso considero esse critério de gols fora um equívoco - a pretexto de incentivar os times a jogar no ataque, fora de casa, provoca uma confusão que só piora as coisas, já que, com pânico de levar gols, os times que jogam em seus estádios ficam com medo de atacar, e os visitantes, por sua vez, continuam atrás. Na verdade, quando se trata de equipes tecnicamente equivalentes, passa a ser vantagem jogar o segundo confronto fora, bastando não levar gols em casa - mesmo um 0 a 0 serve. Aí, no segundo jogo, joga-se para um empate com gols, na retranca, explorando o famoso “erro do adversário”, à la Juventus (da Mooca!). Ao mesmo tempo, se acontece uma vitória do mandante por 1X0 ou 2X0, a sorte fica praticamente selada a favor de quem venceu e não tomou gols. Quem inventou esse critério certamente nunca estudou economia, porque mesmo esse campo do conhecimento, que parece tão exato, na verdade comporta as subjetividades inerentes ao ser humano, subjetividades estas que nem sempre - ou quase nunca - são movidas pela racionalidade. Alguns prêmios Nobel, cujos nomes me fogem agora para citar, se dedicaram exatamente ao estudo destas irracionalidades e seus efeitos na economia moderna. Não é a toa que nos tempos de Pelé sequer havia o critério de saldo de gols nas decisões, e mesmo hoje, tanto a Champions League quanto a Libertadores ignoram o gol fora na decisão do campeão (por ser um jogo apenas, lá, e só saldo de gols, aqui). Para encerrar, vou me repetir. Acho que se um time perde a primeira partida fora por 1X4, por exemplo, mas vence em seus domínios por 5X2, deve ser premiado com a classificação ou título, e não o contrário. Não por acaso, foram esses os placares de Santos X Fluminense nas semifinais do Brasileirão de 1995 - a exibição magistral de Giovanni na segunda partida - a do 5 a 2, no Pacaembu - foi premiada com a classificação do time da Vila. O talento agradece até hoje.

terça-feira, 9 de março de 2010

Avis rara

Se houvesse um prêmio na televisão brasileira para a autêntica diversidade, a apresentadora Leda Nagle, que comanda o 'Sem Censura', faria jus a um. O programa, pelo menos no tempo da TVE do Rio, era diário e transmitido ao vivo, e tratava de praticamente qualquer assunto, mas sem pompa ou pretensão. Os convidados ficavam sentados em cadeiras simples (sem descanso para os braços), numa disposição que lembrava uma reunião de condomínio. Espero que não tenha sofrido modificações (hoje passa na TV Brasil, mas ainda não vi), porque esse despojamento funcionava - a gama de convidados em cada programa era imensa e até que bastante representativa, ao menos do Rio de Janeiro, com artistas de várias categorias, socialites, jornalistas, ex-jornalistas, médicos, barbeiros, professores de dança, veterinários, colecionadores, cabeleireiros, políticos etc, etc. Todos tinham voz - mas valia gritar um pouquinho para conseguir espaço. Assistir ao Sem Censura era acompanhar desde asneiras colossais, abobrinhas inofensivas, a colocações interessantes e até profundas, às vezes tudo isso dentro de um mesmo programa. No final, mesmo num dia de só com bobagens, era diversão quase garantida. A voz de Leda, cada vez mais rouca, whiskey, soa melhor que 90% das repórteres e apresentadoras com aquela típica impostação forçada e obtida em cursos. Ela tem personalidade até para se mostrar mal humorada e cansada em pleno ar, é uma figuraça, mas sempre esbanjando competência na condução do seu programa.