segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Deutsch e ondas curtas

Tem outra rádio do iTunes que escuto de vez em quando, a Swiss Classic. Esta tem bastante locução, até demais - em alemão, no caso. Não entendo lhufas, a não ser o nome do compositor, e às vezes da obra, orquestra e de alguns executantes. De qualquer forma, como acho a sonoridade do idioma bonita, não me incomodo, e ainda tento adivinhar quando sei que estão informando o número de uma dada composição. Sem sucesso claro, exceto no caso das obras que já conheço. A programação costuma picotar a música - um primeiro movimento aqui, um terceiro acolá etc, e isso incomoda bem, mas consigo relevar, porque ouvir um locutor falar em alemão me lembra de quando era criança e tentava sintonizar estações gringas em ondas curtas, no enorme rádio G&E vermelho que foi do meu avô. Chegava a pegar até russo e chinês, mas não me lembro de ter sintonizado uma em alemão legítimo. Voltei longe agora.

Música e feriado

Essa Radio Shymphony (do iTunes, Apple) nunca informa o que ou quem está tocando. Cheguei a me incomodar um pouco com isso, mas agora pelo contrário, estou achando ótimo. Muito bom simplesmente ouvir, reconhecer um ou outra, gostar ou não disso ou daquilo e pronto, relaxar e escutar. E é incrível, porque eles não param de tocar nunca e, como disse em outro post sobre esta estação on line, sua qualidade de som é excelente. De mais ou menos duas em duas horas o locutor aparece e anuncia rapidamente em inglês que estamos ouvindo a Radio Shymphony e finito, mais uma seqüência de duas ou três horas de música clássica na veia. Eles não são muito avançadinhos. Até agora, muito barroco, Mozart, Mahler, Beethoven e românticos em geral, aberturas de óperas famosas etc. Tem como reclamar? O leque podia ser mais amplo, com Prokofiev, Shostakovich e tantos outros, mas a proposta deles é bem legal e não duvido que contemple esses compositores tb, mas num horário menos nobre. PS: contra minhas convicções, estou sim, usando a rádio como fundo musical, no caso, para a leitura de Pornopopéia, de Reinaldo Moraes. Duas palavras sobre o livro: hilariante, genial.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Lajedão

Falando em viagens, tem uma coisa fascinante que é viajar de carro sozinho. A sensação de liberdade derruba qualquer clichê. No caso de as estradas serem boas, sem buracos (não sou de off-road), e quase desertas, é quase um transe, um tipo de meditação extremamente prazerosa. No Brasil isso é difícil, mas não impossível. Viajando de carro podemos escolher ouvir música selecionada a dedo, no último volume, ou o silêncio da estrada, dirigindo e vendo a ampla paisagem se movendo, é muito bom - isso tb acontece quando estamos num trem mas no carro temos o controle da velocidade, do volante, é uma sensação ativa que acho insubstituível. Comparado com camelar em filas de aeroportos, não dá nem para começar. Tem um amigo que faz ou fazia isso de moto, deve ser sensacional também, mas duas rodas não é minha praia. Pena que fiz poucas viagens do tipo. Sozinho mesmo, que me lembre, só uma. Em 2001, ainda solteiro, decidi do nada que iria para Diamantina, norte de Minas, a 700 quilômetros de São Paulo. Saí de casa às 6h00 e cheguei ao destino antes das 16h00. Não é que corri demais, é que a as estradas estavam quase vazias, era dia útil . O trecho que liga Curvelo a Diamantina tem, espero que ainda tenha, uma estrada à francesa, só uma pista de cada lado mas com asfalto bem escuro e lisinho, curvas e retas acentuadas, e o cenário é deslumbrante - meio árido, amarelado, mas com alguma vegetação e grandes rochas fazendo parte de um cenário maior, com montanhas a perder de vista. Imagino fazer este percurso de bicicleta algum dia (não aprendo a deixar de querer retornar, não tem jeito!), mas neste caso, em grupo. Esta viagem à Diamantina não é das mais longas, claro. Uma outra ocasião, desta vez acompanhado de um ex-amigo, voltei do sul da Bahia tb por Minas*, um trajeto de 1.600 quilômetros, quase sem parar, revezando na direção. Me lembro da sensação estranha de olhar para os moradores de cada cidadezinha que passava com um ar de quase pena por eles não estarem também viajando, se deslocando. É que uma vez na estrada nos acostumamos quase que imediatamente, deve ser algo atávico. Meu sonho seria fazer uma viagem pelo mundo dirigindo, mas toda a burocracia, má conservação da maioria das estradas e o perigo de assaltos etc, me fazem voltar à realidade. Ficar parado não deixa de ser ótimo, e a gente também se acostuma rápido. * As rochas ultradilatadas nas imediações de Teófilo Otoni são impressionantes. E a cidade de Lajedão, Bahia, que tem esse nome por causa de um maciço que forma um perfeito paredão, altíssimo, tb ficou na memória. Se bobear, volto lá para passar uns dias. Não tem jeito.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Considerações

Um razoável tempo atrás me incomodava quando um amigo ainda bem jovem – só um pouco mais que eu - e que viajava regularmente pelo mundo a negócios, dizia que para tal lugar com certeza nunca mais voltaria, e isso mesmo quando acontecia de gostar muito de ter estado lá. Era um tipo de realismo que eu silenciosamente desprezava - me soava como pura falta de sensibilidade. Porque para o sonhador meio bobo que era, não havia lugar no planeta que hipoteticamente eu tivesse conhecido que não pudesse retornar, por mais distante que fosse, seja porque teria adorado, seja pelo contrário, o que justificava uma segunda chance. Engraçado que foi preciso passar tanto tempo para admitir que meu amigo estava precoce e essencialmente correto – geralmente não voltamos para os mesmo lugares distantes perdidos no globo, não dá tempo. Hoje já nem me interessa tanto conhecer o mundo (prefiro ler), aliás, me permito inclusive não querer retornar a lugares mais acessíveis e prosaicos que já gostei um dia, como Ilha Bela, por exemplo. Mudança considerável. Mas ainda pretendo conhecer a ilha de Bali. Não é contraditório.

Photos

Neste belo sábado chuvoso, folheio livro* presenteado por minha mãe, com fotos antigas de São Paulo do final do século 19 e começo do 20**. É muito bom. Os textos explicativos são bem escritos e elucidativos. Gosto especialmente de poder ver a cara das pessoas, mas pena que elas quase sempre apareçam meio de longe. Tem uma maravilhosa, em que se flagra com alguma proximidade, por acaso – porque fica evidente que o fotógrafo buscava antes a fachada de um sobrado - um homem de meia idade, que parece encarar a câmera. Gosto de cogitar no que pensava, quais seriam seus anseios, medos, suas alegrias, como era seu jeito de andar, de rir, de falar, comemorar etc, etc. A foto é de 1904, ano em que meu avô materno sequer tinha nascido, faltavam ainda seis anos, 1910. Aquele senhor poderia ser, portanto, pai ou até avô de meu avô, ou seja, meu tataravô. Seus filhos e netos também já se foram há muito tempo, mas seus pensamentos - os de todos eles - quem pode saber? Na verdade, me parece que o objetivo número 1 dos fotógrafos daquele tempo raramente eram as pessoas, elas serviam mais de cenário. Claro que já havia bons retratistas, mas o ideal para mim são fotos (com proximidade) de pessoas, mas não posadas, e isso é difícil de conseguir. Uma vez, numa linda exposição de fotos do Rio da mesma época (no Instituto Moreira Salles, na Gávea), aconteceu: pude me deleitar com um quase close de um casal totalmente belle époque, ultraproduzido que, num domingo de 1910 (havia esta informação) se dirigia para uma missa (dava para ver a igreja, próxima, assim como a chegada de outros grupos de pessoas). Aquele casal estava de mãos dadas, de costas, e provavelmente era jovem, pois caminhava ao lado de duas crianças entre cinco e sete anos. Fiquei emocionado de imaginar o que passava por suas cabeças exatamente naquele momento. Fotos de gente têm uma profundidade quase inata, como se mal precisassem da habilidade do fotógrafo para se tornar boas, o que admito não ser verdade em muitos casos. Mas é que o que valorizo numa foto antiga raramente seria o que o fotógrafo da época buscava, aliás claro que não, pois só a passagem do tempo, se possível bastante tempo vai criar a beleza que aprecio, então imagino que isto ainda se dê hoje – os possíveis méritos estéticos que se obtém no presente tendem a ser desprezados no futuro, ao menos na fotografia. Assunto para um outro post. * "São Paulo de Piratininga - de pouso de tropas a metrópole" - seleção de José Alfredo Vidigal Pontes, fotos do arquivo do jornal O Estado de S. Paulo, editora Terceiro Nome. **Algumas fotos voltam longe no tempo, como uma de 1860, mas quase sem pessoas, só ruas semidesertas. PS: este post é dedicado a meu amigo querido Marcelo Briza Bicudo, a primeira pessoa a me chamar a atenção para a beleza das fotos de gente.

Gosto

Por mais que tente, não consigo gostar de Dvorák, não me emociono com ele. Já desisti de tentar - é que está tocando no rádio. Um poema sinfônico, mas que não me soa poético, longe disso. É normal - seria loucura gostar de tudo o que é bom.

Pode comparar

No post abaixo, quando afirmo que os autores de novela são escritores, claro que não ignoro a diferença de linguagens que o texto comporta. Dramaturgos, roteiristas, autores de novela, minisséries, comics – todos escrevem para um meio visual, que possui outra linguagem, portanto os textos não são uma atividade-fim e serão transformados numa outra coisa, boa ou ruim. Não produzem literatura. Por sua vez, escritores de livros de ficção produzem, sim, literatura, que também será simplesmente boa ou má. Mas o ponto é outro. Woody Allen se diz, antes de mais nada, um escritor – ele cria e pensa seus filmes a partir do texto. Seus filmes são grandes (às vezes) porque bem realizados em suas etapas-chave, como direção de atores, fotografia, história fluente, cenários, mise-em-scene, ritmo, texto (quando há narração, algo recorrente em sua obra) diálogos etc. Mas, no caso de Allen, sem o texto, nada (literalmente) feito. É só um exemplo, porque sabemos que há cineastas essencialmente visuais, para quem o texto não diz muito. Mas no caso dos novelistas e roteiristas, a qualidade do texto é sempre fundamental. Até pela urgência e concreta falta de tempo da televisão em relação à fotografia, iluminação, cenários, direção de atores etc, a qualidade dos diálogos e uma trama fluente são essenciais. É literatura o que fazem? Não, não é. Mas são escritores? Sim, claro. Por isso dei a entender que é óbvio que um Manoel Carlos é muito melhor escritor que um mau ou medíocre ficcionista literário que, no caso, constitui uma verdadeira multidão – teoricamente, só teoricamente, não é difícil sentar e cometer um livro, já para ser um roteirista profissional é necessário no mínimo ser contratado... Resumindo, um livro de ficção ruim é má literatura, uma novela boa não é boa literatura, mas seus autores podem e devem ser comparados, só isso. Mas, e quanto aos grandes escritores de ficção e poetas? Estes são gênios incomparáveis, mas quase tão raros quanto Mozart ou Beethoven. Salve Conrad, Nobokov, Shakespeare, Tolstoi, Yeats, Pessoa.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Escritores, sim

Na verdade a gente no Brasil fica meio com vergonha de dizer ou admitir que acompanha novelas. Constato que fiz exatamente isso no post de baixo, justificando por que estaria vendo uma (falta de TV por assinatura etc). É isso é injusto com essa dramaturgia dita industrial, porque às vezes - não muitas, é verdade - são trabalhos que conseguem ser bonitos e podem nos comover, o que não deixa de ser o desejo primeiro (ou último) de qualquer obra de arte. Devido talvez à longa extensão, elas costumam ser desiguais; são ao mesmo tempo boas e fracas, mesmo quando se trata daquelas que mais acertam que erram. Já vi muita novela na vida, principalmente na infância e adolescência – quando elas beiravam os 100% de audiência (de aparelhos ligados). De uns tempos para cá muito menos, previsivelmente. A última que vi quase inteira foi Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva, em 2004 – antes dela tb vinha de um período longo sem novelas, uns 10 anos ou mais. Senhora do Destino foi muitíssimo interessante, com uma trama rica e grande atuações, e foi tb um grande sucesso de público, com audiência lá em cima, comprovando que é burrice subestimar o público médio. Na época Silva deu uma declaração de que gostei, comparando o autor de uma novela das oito com um piloto de jumbo. Hoje acho que ele foi muito modesto, porque escrever uma novela do horário nobre, mesmo com uma equipe ajudando, deve ser mil vezes mais difícil e complexo do que pilotar aviões, seja do tamanho que for. Os autores merecem mesmo ganhar milhões (espero que ganhem), porque são a peça mais importante de uma engrenagem que fatura muito - talvez já esteja na casa do bilhão se pensarmos em toda a estrutura que direta e indiretamente é montada a partir do zero. Autores com Aguinaldo – que só com 'Senhora' já estaria na história da televisão brasileira - Manoel Carlos, Janete Clair, Dias Gomes, Gilberto Braga, Lauro César Muniz e alguns outros são grandes escritores (macrorroteiristas), e que não me venha alguém falar que não são, por não produzirem livros de ‘literatura pura’ etc, porque isso é puro preconceito e/ou despeito. Geralmente saem da boca de alguns professores de literatura e certos autores de livros tão pretensiosos quanto fracassados. PS: muita gente gosta de detonar as novelas por causa de sua iluminação chapada. Mas é óbvio que, por mais recursos que a Rede Globo possui - e eles não são poucos, porque não podem ser poucos - não seria possível sofisticar a luz de cada capítulo, porque estouraria menos o orçamento que o tempo. Seria inviável, então a fotografia chapada tem de ser vista como uma liçença poética, como comummente se faz no teatro.

Atorzão

Sem medo de queimar meu filme, vou falar da atual novela das oito, Viver a Vida. Nada como não ter mais tevê por assinatura para atacar de aberta, que afinal não tem só futebol e Jornal Nacional. Mas voltando à novela, estou impressionado com a atuação do ator que faz os gêmeos – o médico e o arquiteto. Ele (ainda não procurei o nome) está não menos que brilhante. Como toda novela, a atuação desigual do elenco fica gritando o tempo todo, mas quando ele entra em cena, esse desequilíbrio fica ainda mais absurdo. O cara é muito bom. E uma coisa fica bem clara. Não tem naturalismo que afete o desempenho de um grande ator quando este quer trabalhar para valer um bom texto. Em tempo. O ator em questão é Mateus Solano, 29 anos incompletos.

Boa!

No livro Pornopopéia, é muito legal e divertido ler um pequeno parágrafo em que a editora Objetiva justifica que, a pedido do autor, as novas (e esdrúxulas) regras ortográficas que passaram a vigorar (por decreto presidencial) em janeiro de 2009 (e que só serão obrigatórias a partir de 2013), NÃO foram seguidas. Grande Reinaldo Moraes, grande!!