quinta-feira, 8 de julho de 2010

Hipocrisia

Há pouco mais de 10 anos, Pelé "revelou" a principal razão para que, aos 33 anos e em boa forma física e técnica, não jogasse a Copa de 74 na Alemanha: teria descoberto que a ditadura militar brasileira torturava presos políticos. Muito nobre, mas soa bem falso. Vamos supor que ele realmente tivesse descoberto a tortura somente em 1973 - considerando o grau de alienação dos jogadores de futebol ainda hoje, imagina-se naquele tempo, tudo bem. O ponto é outro. Faltou um jornalista menos camarada fazer a seguinte pergunta: "Pelé, caso você tivesse tomado conhecimento da tortura antes da Copa de 1970, auge da repressão, vc teria feito a mesma coisa, ou seja, teria deixado de tentar o tri no México?". Nem precisava responder.

Moderno

Li a pequena e bonita biografia escrita por Edmund White sobre Rimbaud. Difícil imaginar um artista tão concretamente à frente de seu tempo como Rimbaud. Que ele tenha criado a obra que criou (e a que viveu) no início da década de 70 do século 19, pré-Belle Époque, já é espantoso. E que esta obra tenha sido concebida entre os 15 e 19 anos do poeta, então... Por essas e por outras que adjetivos como genial, inovador, precursor, original etc., deveriam ser usados com muito mais parcimônia por aí, principalmente no que toca os auto-elogios... Argh!

Blá-Blá-Blá

Os analistas do futebol tentam criar, a posteriori, uma história factível e "lógica" sobre o jogo que terminou. Costumam eleger também os heróis e vilões do evento. Hoje a Espanha eliminou os alemães por 1X0. Tudo bem, mas não custava alguém ter lembrado que a ausência de Thomas Mueller (suspenso pelo segundo cartão amarelo) foi determinante, e não apenas um detalhe, e que os espanhóis se lançaram ao ataque com tanta intensidade e desde o início exatamente porque não tinham que se preocupar com esta grande promessa de craque de 20 anos. Não que o atacante fosse o único grande jogador alemão, mas sem ele a marcação ficou bem menos complicada para a Espanha. Mudou tudo. Mas isso não tira o mérito da Fúria, é claro, que foi inteligente e fez a sua parte.
PS: essa história de suspensão por apenas dois cartões amarelos devia ser revista. Aliás foi, já que os cartões passaram, a partir desta Copa, a serem zerados nas semifinais. A idéia era preservar os craques para a grande final, mas deveriam ter promovido a mudança já a partir das quartas - Mueller teria jogado hoje. De qualquer forma, muito melhor se apenas três cartões suspendessem o jogador - na Libertadores, os amarelos são decorativos, aí é um exagero. Mas condenar um jogador por ter recebido dois amarelos é frescura.
PS2: o Brasil foi eliminado pela Holanda porque Dunga perdeu Elano (contusão) e seu reserva imediato, Ramires (dois cartões). Foi muito azar do treinador, e foi determinante. O blá-blá-blá de que ele foi um fracasso é pura “análise a posteriori”.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Samuel Johnson

Já estão falando em Copa Mercosul. Calma. Melhor esperar as semifinais e contar quantos selecionados da América do Sul terão sobrevivido. Seria muito engraçado que os confrontos fossem os seguintes: Alemanha X Espanha e Holanda X Gana, hehe!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Blogs y la obra

A principal acusação (velada) contra blogueiros em geral é que estes – suprema pretensão – ambicionam criar uma obra, por pior que seja (a aposta em Freud é infalível, o acerto, não). Mesmo assim, qual o problema? Quem nasceu para ser José Eduardo Dutra nunca será Tocqueville, até aí tudo bem, e daí? Recentemente, um editor de uma conhecida revista de literatura (brasileira) ponderou (!) que o que falta na rede é justamente.... guess what?, edição!! Bom saber...

Nelson e a Copa

Se Nelson Rodrigues ainda fosse vivo, acho que torceria contra o Brasil. É que aquele complexo de vira-lata que tanto o incomodava deu lugar à uma soberba e oba-oba ridículos. Seria como se a sua 'grã fina de nariz de cadáver' ("who's the ball?"!), tivesse se tornado uma legião, e uma legião barulhenta. Não duvido que essa nova realidade lhe causasse repulsa.

Pós-sábado

Esta Copa está produzindo um efeito diferente e interessante em São Paulo. Nos jogos do Brasil em dias da semana, a cidade não só pára antes (com acento, ainda não é obrigatório) como fica tranqüila (idem), pós-jogo, por horas e horas. Mesmo quando o Brasil joga de manhã (às 11h), nada de "produtivo" acontece no resto do dia. Até quem não gosta de futebol parece apreciar não ter de fazer nada em dia útil, sem culpa. E é uma atmosfera que chama a atenção por ser diferente da que existe nos domingos, por exemplo, mais silenciosa e triste. Está mais para um feriado que caiu no sábado, em que quase ninguém viajou, mas em que se comemora coletivamente alguma coisa. Na verdade, não existe uma data específica do calendário em que isso acontece em São Paulo, a não ser Copas do Mundo, especialmente esta, porque até a Copa passada, a sensação de folga não se estendia tanto depois dos jogos - a megalópole agora globalizada se permite um relax maior, e isso faz sentido, não é um paradoxo. É um belo contraponto à histeria coletiva DURANTE os jogos. De qualquer forma, apesar de ter uma defesa fantástica e um time mais equilibrado, acho que nos despedimos na sexta-feira, contra a Holanda.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Alberto Iglesias

Os grandes filmes de Almodóvar não seriam tão grandes sem a música de Alberto Iglesias - acredito até que são mesmo dependentes dela. As trilhas de Iglesias funcionam como um segundo (às vezes único) narrador nos roteiros do grande cineasta. Mas às vezes são mais do que isso, porque a música, com sua intensidade e beleza, mais do que dialogar e complementar, consegue se expressar como se fosse um personagem autônomo - mas não qualquer personagem, um protagonista. No fundo, é. Está entre as mais felizes parceiras do cinema.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Link

Entrevista de Caetano Veloso concedida ao poeta Régis Bonvicino em São Paulo, no final de 1979. Linda e longa. Mas tudo soa como se fosse um tempo pré-histórico. Deve ser porque no Brasil, até o final dos anos 80, o atraso era bem mais encorpado. Na época, Régis tinha 24 anos e Caetano, 37. http://www.sibila.com.br/index.php/critica/1139-caetano-veloso-1979
Aliás, o site Sibila, de Bonvicino, sobre poesia e literatura, é bem bacana.

Itália garfada

Tudo bem que a seleção italiana, desfalcada de Pirlo e Buffon, seus dois melhores jogadores, não estava jogando um futebol dos sonhos, longe disso, mas também não precisava ser roubada como foi, hoje, contra a brava Eslováquia. Simplesmente DOIS gols anulados incorretamente, lamentável. Se fosse com o Brasil, a choradeira não terminaria nunca. Aqui só vale roubar a favor.