terça-feira, 4 de maio de 2010

Proust tradutor

A minibiografia de Edmund White sobre Proust, quando não foca apenas o lado gay do grande escritor (e tenta mostrar que praticamente todas as grandes personagens femininas de 'Em Busca do do Tempo Perdido' eram na verdade rapazes, meio boring isso) é bem legal, e tem uma passagem deliciosa, que é entregar que Proust traduziu para o francês dois (!) livros de John Ruskin exclusivamente por meio de colas que sua mãe e uma amiga inglesa de um primo lhe passavam, “palavra por palavra”. Ou seja, como ele não dominava nenhuma língua estrangeira – apesar de não ser monoglota – nem tentou se dar ao trabalho de ler sequer uma palavra do original, mas, segundo White, foi capaz de transformar as colas num francês fluente e belo. Sobre isso, li no bom blog Anos Loucos, que Proust, confrontado por um editor, se saiu com a seguinte resposta: "Não tenho a pretensão de saber inglês; eu reivindico saber Ruskin". Genial!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Campainhada

"As duas ou três vezes que me abriram/ A porta do salão onde está gente,/ Eu entrei, triste de mim, contente --- E à entrada sempre me sorriram..." Mário de Sá-Carneiro

O amor...

Herbert Vianna canta: “cuide bem do seu amor, seja quem for”, letra e música de sua autoria. Apesar das boas intenções de tentar louvar o amor, definitivamente não é das canções mais felizes que a MPB já conseguiu produzir. Pensando no refrão, pode-se dizer que Eva Braun até que tentou, mas falhou na empreitada hehe! Já Nadia Alliluyeva então... Má ou boa poesia também é questão de lógica.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sopranos

Tenho visto Família Soprano em DVD. Nunca tinha dado muita bola para séries americanas, mas venho corrigindo isso recentemente - The Shield, e agora os Sopranos me fizeram mudar completamente de idéia. Apesar da violência e sordidez - impactantes no limite do (in)suportável - o retrato da máfia de New Jersey é tão fluente (ainda que intencionalmente meio caricato), que fica praticamente impossível parar. São as novelas de lá, só que semanais, mas para quem cresceu vendo novelas brasileiras, com capítulos diários, soa estranho, porque já me aconteceu de quase virar a noite até que uma temporada inteira dos Sopranos terminasse, e ainda sim já queria mais, o sono é que me fazia parar. Provavelmente o americano médio acompanha várias séries ao longo da semana, por isso não sente tanta falta do capítulo seguinte de uma em particular. O fato é que os capítulos são elaborados e produzidos como no cinema, e ficaria inviável que fossem diários, de tão caros. Além disso, haja roteiristas, seria impossível. Diferente de 24 horas, Soprano tem um ritmo que até pode se classificar de lento, mas só na aparência, já que sua atmosfera pesada envolve o espectador aos poucos, num crescente sem trégua. Fotografia de primeira, interpretações soberbas, alguns diálogos idem, a abertura nota mil, e o mérito de mostrar a máfia italiana na grande Nova York na atualidade, em especial o dia a dia de uma das italian families. Como se a história de Godfather tivesse tido a oportunidade de se estender em meses, anos. Bom demais.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PS

Sobre o post abaixo, vale uma observação. Naquela época, os candidatos a vice concorriam diretamente aos cargos, ou seja, disputavam e recebiam seus próprios votos. Na prática, era uma outra eleição, ainda que simultânea à da presidência da República. Isso significava, claro, que não necessariamente o presidente eleito conseguia emplacar o vice de sua chapa. Que coisa mais ridícula, parece uma espécie de elogio da conspiração! - terá sido mais uma jabuticaba brasileira? De qualquer forma, como se sabe, foi o que aconteceu em 1960, já que Jango, mesmo sendo de outra chapa, se "elegeu" vice de Jânio. O resto é história.

Pergunta

Sempre que chega perto da eleições para presidente da República, me ocorre o que poderia ter acontecido se houvesse reeleição na época de Juscelino Kubitschek - este ano mais ainda, pelas comemorações dos 50 anos de Brasília. Me pergunto sobre o golpe militar de 1964. A dúvida cabe, porque, muito possivelmente, se pudesse concorrer, Juscelino teria vencido a eleição para a Presidência em 1960, e não Jânio Quadros, acho que isso ninguém questiona - e com o mineiro na disputa, talvez Jânio nem tivesse concorrido. Assim sendo, nossa história política teria sido completamente outra, ou isso não teria feito muita diferença, a não ser adiar a data do golpe? Bom, como sempre faço aqui, não vou ficar em cima do muro. Acho que teria mudado tudo, e para melhor - nossa precária democracia da época teria resistido.

Mozart

Incrível como o primeiro concerto para piano de Mozart (em fá maior, K 37), composto quando ele tinha só 12 anos, já é música de primeira classe. Ouvi há pouco no celular (Cultura FM). Conheço alguns outros concertos para piano da fase ultrajovem dele, e não tinha ficado tão entusiasmado, mas esta obra me tocou. De qualquer forma, a partir do número 17 (em Sol maior, K 453) ele alcançaria o sublime como pouquíssimos artistas de qualquer tempo conseguiram fazer. Mozart.

1º Mov: http://www.youtube.com/watch?v=RWnnn3BlC20

2º Mov: http://www.youtube.com/watch?v=r71CE16ONzg&feature=related

3º Mov: http://www.youtube.com/watch?v=a2XspamNYaw&feature=related

domingo, 18 de abril de 2010

Only Mozart

Descobri há pouco no iTunes uma rádio francesa que só toca Mozart (Radio Mozart), que ótima idéia! Sempre sonhei com isso. Não que se vá escutar um mesmo autor - mesmo que grande - o dia todo, mas é bom saber que se quero ouvir Mozart, basta acessar o iTunes e pronto, sua música estará lá, a poucos cliques. Não há locução (o que é bom e ruim), e as peças vão surgindo picotadas - não são necessariamente tocadas na íntegra, se é que isso acontece. Mas tudo bem, continua valendo.

Vale o jogo

Não gosto muito do receio antecipado que se disseminou na imprensa esportiva, de que se o Santos não for campeão (paulista), o futebol-arte sairá perdendo, e que isso soará como mais um grande injustiça do futebol etc. Daqui a pouco o Santos enfrenta o São Paulo em casa, e pode até perder por um gol - torço por mais uma exibição de gala dos meninos da Vila - mas se por acaso a vaga ficar no Morumbi e os gols tiverem sido lícitos e sem interfência da arbitragem, tudo bem, terá sido justo. Na verdade, o Santos “dá espetáculo”, como já virou clichê falar, porque tem jogadores excepcionais, como Neymar, Robinho e Ganso – além dos ótimos André e Marquinhos, mas sua defesa é apenas razoável e tem um goleiro que considero fraco. Quando Muricy conquistou o tricampeonato brasileiro pelo São Paulo (2006/07/08), o que se falava era que seu time ganhava, mas jogava feio. Não concordo, mas mesmo que fosse uma verdade indiscutível, como jogar bonito sem craques? O que ele fez no SP é incrível e deve ser exaltado. No auge de Pelé e Cia, o Palmeiras conseguiu a proeza de conquistar três campeonatos paulistas (1959, 63 e 66) e uma Taça Brasil (1959), provavelmente sem "dar espetáculo", mas foi merecedor em cada um das conquistas. PS: o Brasil perdeu para a Itália em 82 porque Cerezo e Leandro cometeram falhas individuais bisonhas, que não foram desperdiçadas pelos italianos, por isso, mesmo com excepcional atuação de Zico (e muito boa de Sócrates e Falcão), o Brasil sucumbiu, porque o futebol é um esporte essencialmente coletivo – para Zico foi uma grande injustiça, mas para Paolo Rossi foi mais que justo. PS2: o jogo de hoje deveria ser no Pacaembu e não na Vila. Seria um espetáculo, mas o Santos preferiu pensar pequeno, uma pena.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fumaça e C02

Sobre a erupção do tal vulcão na Islândia e o estrago que está provocando nos aeroportos europeus, fica a constatação da imensa fragilidade da vida humana na Terra, e isso tem pouco a ver com o discurso ecológico corrente, que se baseia na crença de que o homem está destruindo a si mesmo, quando não o próprio planeta. A verdade é que nossas ações - boas ou más - ainda não são determinantes. No fundo, todas aquelas previsões apocalípticas e cafonas do fim do mundo, por mais absurdas, tocam na questão – houvesse mais erupções, ou se elas fossem mais extensas e duradoras, e no mínimo haveria de cara um caos econômico generalizado, mas se o clima sofresse uma alteração mais radical por causa da fumaça, impedindo parte que fosse da chegada dos raios solares à superfície, já era - não possuímos tecnologia para reverter o processo, e tampouco para sobreviver no seu decorrer a médio e longo prazo. Isso já aconteceu algumas vezes na história do planeta, bem antes do surgimento de nossa espécie, e em circunstâncias bem mais radicais - mas para extinguir a civilização que a humanidade construiu, não é preciso que o grau da mudança seja tão grande, basta um sopro. Mas o fim não virá por causa da nossa emissão de carbono.