sábado, 3 de abril de 2010
PS Caetano e Gal
It´s a long way, You don´t Know Me, Como Dois e Dois, Você Não Entende Nada, Maria Bethânia, De Noite na Cama, Nine Out of Ten e London, London são reconhecidas - mesmo para os muitos e crescentes não fãs de Caetano Veloso - como belas composições do artista em seu exílio londrino, assim como a sua interpretação do clássico Asa Branca, no mesmo período. Cinema Olympia – composta pouco antes do exílio, e logo gravada por Elis Regina, e Aracaju, na voz de Caetano (dele e Vinícius Cantuária, 1979) idem. Tudo acessível no You Tube, com exceção da linda Tapete Mágico, já de 1981, cantada por Gal Costa, que só localizei na Rádio UOL (sem maiores exigências, bom saber). Já as versões originais de Caetano em A Grande Borboleta, Two Naira Fifty Kobo, Alguém Cantando - todas de 1977 - são raras na rede e dependem da pesquisa e do dia, ou seja, de sorte, mas valem a tentativa. Por fim, Gal cantando Já Era Tempo (1979), inusitada parceria de Ary Barroso com Vinicius de Moraes, de 1962 (a dupla compôs mais alguma canção?), é lindo. E ela não faz menos bonito em Ressussita-me, que já cheguei a achar brega, hoje não mais - sua voz de cristal comove.
Filme
Com toda a certeza, “Com a Bola Toda” (Dodgeball: A True Underdog Story), com Ben Stiller e Vince Vaughn, não concorreu em 2005 a nenhuma Palma de Ouro em Cannes, mas foi um dos filmes mais engraçados que vi na TV nos últimos tempos (e dublado). O fato de ter um jogo como a queimada (!)como elemento-chave já valeria uma chance, mas o filme tem cenas engraçadíssimas, que o justificam inteiramente. Boa escolha da Fox Brasil para um Sábado de Aleluia.
terça-feira, 30 de março de 2010
Gênios tb?
Que figura incrível foi o holandês Hans van Meegeren (1889 — 1947), o maior falsificador de Vermmer - personagem que daria um filme e tanto, se é que já não foi feito. Li com prazer a biografia do pintor, "Eu Fui Vermeer", do irlandês Frank Wynne. De vilão (chegou a ser preso por suspeita de colaborar com os alemães durante ocupação que seu país sofreu na Segunda Guerra), foi alçado a herói por ter conseguido provar que na verdade enganara autoridades alemãs, vendendo-lhes falsificações perfeitas, mas morreu do coração logo depois, sem ter tido tempo de aproveitar a notoriedade - mas já tinha acumulado fortuna. O maior feito de Meegeren foi ter forjado, nos anos 1930, um famoso quadro que se perdeu ou pode nem ter sido pintado por Vermmer, mas que foi dado por autêntico e festejado pela crítica especializada, ou seja, seria como se um músico do século 20 se aventurasse a compor uma cantata perdida de Bach, por exemplo, baseado apenas em textos sobre ela (sem partitura, claro), e essa falsa cantata fosse considerada autêntica e digna de ter sido criada pelo gênio alemão. Ou inventasse um fictício sétimo concerto de Brandenburgo, à altura da obra-prima original. Isso denotaria também genialidade do falsário, ainda que, evidente, lhe faltasse o carimbo da originalidade, por ter trabalhado a posteriori. Mas o assunto do fake é sem dúvida fascinante e também foi abordado com brilho por Orson Welles em “Verdades e Mentiras”, filmaço de 1974, sobre o qual quero falar em outro post.
Ficar
Logo que terminei de ler “A Arte de Viajar”, de Alain de Botton, há uns seis ou sete anos, fiquei contente e aliviado, porque, com exceção da alta juventude, quando qualquer pretexto era válido para viajar ("para qualquer lugar! qualquer lugar! desde que eu saia deste mundo!", Baudelaire citado por Button), para mim elas quase sempre precisam de um significado, de um pequeno motivo que seja - por mais subjetivo - para se justificarem. E, de certa forma, é o que fala Botton, com erudição e poesia – seu livrinho é uma pequena jóia. Mas, dito isso, hoje me deti num avião que já manobrava no céu, provavelmente para a rota da ponte aérea SP-Rio, que me fez ter uma enorme vontade de pegar um táxi para o aeroporto e pegar uma carona para qualquer lugar a não menos que umas 18, 20 horas de vôo. Passar uns 10 dias nesse destino incerto e voltar de navio, para ler com tranqüilidade os livros que já se acumularam. Mas como nos ensina Botton, essa atitude tenderia a cair no vazio, portanto, fiquemos por aqui e não percamos mais tempo.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Pacaembu
O grande barato do futebol é que uma partida pode ficar no zero a zero. Esse receio está sempre no ar, principalmente quando estamos no estádio – no fundo preferimos que nosso time leve um gol e torcer pela reação, a sair com um placar em branco, isso ninguém confessa, mas arrisco que possa ser um desejo secreto de quase todo torcedor, a não ser os fanáticos, porque os chatos sempre fazem parte de qualquer paisagem. Por isso vibramos tanto quando e se sai o gol – pelo nosso time e por nós mesmos, já que acreditamos que isso seria possível e acabou sendo, mas podia simplesmente não acontecer. É interessante que um esporte comporte o conceito do zero, do nulo tão deliberadamente, acredito que seja um diferencial do futebol, entre vários outros, como a regra do impedimento, de uma simplicidade complexa (ou vice-versa). Paulo Francis dizia freudianamente que o esporte (ou especificamente o futebol, não me lembro agora) consegue ser tão atraente e popular porque nos traz de volta a sensação de que o tempo não está passando, como quando éramos crianças. Faz todo o sentido, porque enquanto a partida está em andamento, é como se nada mais interessasse ou até mesmo existisse. Ontem estive no Pacaembu e presenciei a vitória do meu time por 4 a 3 contra um tradicional rival (que adota o nome de nossa cidade, quanta indelicadeza!), com direito a gol contra deles nos acréscimos, o gol da nossa vitória. Como quase sempre acontece, fui ao estádio sozinho, porque gosto de trocar idéias com desconhecidos durante a peleja - são encontros que surgem com naturalidade e duram aquele momento, às vezes com intensidade surpreendente. O apito final foi daqueles happy ends que hoje raramente acontecem mesmo nos filmes de Hollywood - felicidade coletiva e apoteótica, por cinco ou seis minutos, e já é muito, não se pode exigir mais. Choveu quase o tempo todo, e a sensação de um teatro a céu aberto é sempre reconfortante e inesquecível – só não vale zero a zero.
domingo, 28 de março de 2010
Ética
Toda quinta-feira à noite, a TV Cultura exibe o programa “Ética”, apresentado, claro, por Renato Janine Ribeiro, titular de Ética e Filosofia Política na USP, e intelectual que privatizou o assunto no Brasil, ao menos na grande imprensa. O programa é de um personalismo que chega a ser engraçado – closes do professor de vários ângulos vão se acumulando, e dá-lhe ‘flagrantes’ em primeiro plano de Janine andando pelo centro de São Paulo, no meio da multidão, de costas, de frente, de lado, a caminho de mais uma entrevista com pessoas selecionadas a dedo para ilustrar fatos que já tinham sido escolhidos de antemão. O programa parece ter como proposta seguir o velho contraponto de viés marxista, de antagonizar as classes sociais - até aí nada de errado, a priori, o que incomoda é o tom e o formato do discurso, meio gastos, de tentar ser um tipo de voz dos oprimidos contra o sistema. Parece que a idéia seria tirar o professor de ética da calmaria das salas de aula e levá-lo a tomar contato com questões éticas dos cidadãos no dia a dia, mas o que aparece na tela é um chororô que não faz justiça aos desafios que as pessoas têm de enfrentar para sobreviver. No final, soa como se fosse uma radiografia do Brasil de 1978, por exemplo. Um dos episódios que vi tratava da liberdade no ambiente de trabalho, um assunto que renderia um tratado, mas que no programa é conduzido de forma a criticar a autoridade, a rigidez e toda uma série de normas chatinhas que fazem parte da rotina de qualquer escritório, quando não é o caso de trabalharmos no Google, ou noutro lugar mais descolado no Vale do Silício. O tom, como dificilmente seria diferente, é de crítica, mas não decola, porque as queixas dos entrevistados parecem ter sido sopradas antes da gravação (e quase restritas a enfadonhas questões trabalhistas, e não de cunho individual, que resultaria em algo mais interessante, autêntico), e as pontuações de Janine sobre ética não dão liga, ficam deslocados e acentuam o fake de cada conversa. Teria sido mais interessante um depoimento do próprio Janine sobre o ambiente de trabalho de sua época como diretor de avaliação do Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
sábado, 27 de março de 2010
Cuidado
A linda canção Tonight, que faz parte do disco Lust for Life, lançado por Iggy Pop 1977, é uma parceria de Iggy com o amigo e admirador David Bowie. Quem não conhece a história do artista americano pode cair no erro de achar que o jeito de cantar de Iggy na música seria uma homenagem ao de Bowie. Mas não é o caso, já que quem inventou esse estilo foi justamente Iggy Pop, grande e original artista do rock, algo não muito frequente.
http://www.youtube.com/watch?v=i--aKHwPPJI
http://www.youtube.com/watch?v=i--aKHwPPJI
quinta-feira, 25 de março de 2010
La mala educación
O ex-diretor da Radiobrás, Eugênio Bucci, em artigo no Estadão de hoje ("A imprensa não vai tão bem assim"), se mostra muito preocupado com um tipo de jornalismo que, para ele, faria o papel de ‘tribuna acusatória’. Baseado em pesquisa recente sobre a imprensa brasileira, Bucci introduz a conhecida ladainha, de viés totalitário, de que não caberia à imprensa fazer denúncias, coisa muito feia, que deve se restringir ao Ministério Público - fiscalizar até que tudo bem, mas denunciar, não mesmo. Não suporto o tom do seu texto, pseudo-suave, com aquele verniz de censor ‘boa gente’, que só fala para o nosso bem, mas avisa que pode puxar (ou autorizar que puxem) nossas orelhas, se achar necessário. Uma afirmação dele à época do mensalão diz muito sobre sua mentalidade: logo que deixou de ser o manda-chuva da Radiobrás, aquela da 'Voz do Brasil' e 'Café com o Presidente', entre outras pérolas do jornalismo oficial, e não sem antes se gabar de que havia "profissionalizado" o lugar, teve a pachorra de dizer que a agência teria realizado uma cobertura das mais isentas e contundentes da imprensa brasileira sobre o caso!, - foi a piada do ano, já que ele nunca apurou nenhum fato novo e, claro, deixou sempre de lado as maiores complicações para o governo Lula. E até aí tudo bem, porque é óbvio que uma agência estatal não tem independência suficiente para levantar a voz contra o governo, seu patrão. O que espanta é a hipocrisia do discurso de Bucci, além da vaidade de se supor diferente dos chefões anteriores da Radiobrás, querendo se diferenciar por uma suposta isenção inédita, mas só fictícia. Pelo artigo, ficamos sabendo que Bucci prefere um jornalismo apartidário, mas que na verdade trai sua preferência pelo isentismo chocho, manipulável - a pretexto de ler a pesquisa como um puxão de orelha dos leitores aos jornais, insatisfeitos que estariam com uma suposta "polarização" excessiva, ele prega moderação aos editores, dando a entender que, hoje, a opinião geral seria de que a imprensa brasileira não passaria de um mero "aparelho sob controle da oposição". É inacreditável. Em que país ele vive?? Tem internet? - o apoio da "mídia" ao governo Lula, por exemplo, chega a ser constrangedor, e não o contrário... Com exceção de SP, Rio e mais algumas poucas exceções, esse adesismo é recorrente no Brasil, em todas as esferas de governo. Na verdade, a imprensa, além de fiscalizar o governo, tem o papel de defender os valores democráticos, sem medo de bater pesado em grupos ou pessoas, influentes ou não, que tentam colocá-los em cheque. Quanto à possibilidade de se equivocar, se isso acontecer, perderá o que lhe é mais caro, a credibilidade, e, eventualmente, pode responder na Justiça por denúncias que se mostram infundadas - faz parte da rotina em estados democráticos. Bucci sempre se omitiu quanto a isso, e o faz novamente neste texto – ele parece nos prestar um favor ao não defender, por exemplo, a postura editorial de um Granma cubano, afinal ele não é um radical, claro que não, apenas um “crítico” do modelo de negócios vigente no meios de comunicação, principalmente nos países verdadeiramente livres. Nos Estados Unidos, a maior democracia do mundo, os grandes jornais não escondem inclusive as suas preferências ideológicas (New York Times democrata, Wall Street Journal republicano, idem as TVs etc.), sem que isso altere minimamente sua crença na defesa intransigente dos valores democráticos, alicerce maior da sociedade americana. Na Inglaterra, outro país de ponta na garantia do direito de expressão, a grande imprensa tampouco esconde suas inclinações políticas (The Guardian à esquerda, Times e Financial Times à direita etc.), e os tablóides, por sua vez, devassam a vida das celebridades e dos políticos importantes, e ai de quem for flagrado por eles cometendo ilegalidades ou crimes - mas quando vacilam, tomam processos milionários. Claro que Bucci não concorda com nada disso (posso apostar que, no caso dos tablóides, deve achar que eles são apenas a expressão da hipocrisia nas sociedades puritanas!), ele prega um tipo de isenção chapa-branca que está autorizada apenas a sugerir os fatos ao MP, nada muito além disso, - Collor não teria caído com uma imprensa tão comportada, apolítica. Sorte que esse raciocínio torto cai imediatamente no vazio ao evocarmos o célebre caso Dreyfus, no fim do século 19 – Émile Zola enfrentou o poder constituído com fatos, coragem e talento. Jamais o faria com adesismo travestido de civilidade.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Não dá
O prelúdio coral em Fá menor, de Bach (BWV 639), que consta de Solaris (1972) - Tarkovski foi um fervoroso admirador do gênio alemão - é daquelas peças que justificaria por si só a fama eterna de qualquer compositor, por mais obscuro. Vale a bela máxima de Carlos Drummond sobre Pelé, sobre quem escreveu, a propósito de seu milésimo gol, que o difícil não seria fazer mil gols como ele, mas um gol como ele. Bach escreveu mais de 400 horas de música (o equivalente, no mínimo, a uns 600 CDs no formato canção), boa parte de suma importância para seu meio de expressão. Bem, aí Pelé já ficou em algum lugar muito distante e modesto na história da humanidade, com todo o respeito que lhe é devido.
Daime
Sobre o caso do consumo do daime, não se questiona que no Brasil seu uso é legal, por motivos religiosos e/ou terapêuticos. Até aí, ok. Mas por que não obrigar a todos – não só os consumidores que fazem parte de seitas, mas também os pacientes que buscam no daime a cura de algumas doenças – um exame clínico que constate a boa saúde psíquica dessas pessoas, antes da ingestão do chá? Para citar um exemplo banal, a partir dos 35 anos, quem resolve se inscrever num academia de ginástica, é obrigado, antes de mais nada, a fazer um caro exame de avaliação cardiovascular, para atestar que está apto a fazer os exercícios – ou seja, tem de provar que dificilmente vai cair duro na academia. Então qual seria o problema de, antes de se autorizar o uso da droga, exigir exames para qualquer um que pretenda experimentá-la, seja pelo motivo que for? Acontece que a legislação brasileira não exige isso, e a aprovação do uso, ao menos na seitas, fica a critério dos tais ‘líderes religiosos’, como explica o editorial da Folha de S. Paulo de hoje, que saiu em defesa do daime como se este e as próprias seitas que o utilizam estivessem sob ataque, uma postura estranha - mesmo considerando que o jornal perdeu de forma brutal e absurda uma de suas estrelas, não se justifica qualquer tipo de corporativismo, até porque Glauco não precisaria desse expediente. O fato é que, como esses religiosos não são ou não precisam ser médicos, acho que tudo passa a girar em falso. Segundo a última edição da revista Veja, o pai do assassino de Glauco chegou a procurar o cartunista, advertindo que o filho tinha problemas, mas foi ignorado. Não se trata, absolutamente, de tentar incutir culpa na própria vítima da tragédia, mas se o exame médico fosse obrigatório e sério, será que o rapaz conseguiria ser aprovado para passar a consumir o daime? Não acredito que esse raciocínio possa ser associado, em absoluto, com algum tipo de preconceito religioso. E calar-se para não correr esse risco (absurdo) soa péssimo, e seria evocar os piores tempos em que as patrulhas delegavam para si o que podia e o que não podia ser debatido - felizmente a internet está inviabilizando esse viés totalitário da visão única.
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