sexta-feira, 5 de março de 2010
Ledo Ivo - Asilo Santa Leopoldina
"Todos os dias volto a Maceió.
Chego nos navios desaparecidos, nos trens sedentos, nos aviões cegos/
Que só aterrizam ao anoitecer.
Nos coretos das praças brancas passeiam caranguejos.
Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcar.
Fluindo docemente dos sacos armazenados nos trapiches
e clareiam o sangue velho dos assassinados.
Assim que desembarco tomo o caminho do hospício.
Na cidade em que meus ancestrais repousam em cemitérios marinhos.
só os loucos de minha infância continuam vivos e à minha espera.
Todos me reconhecem e me saúdam com grunhidos
e gestos obscenos ou espalhafatosos.
Perto, no quartel, a corneta que chia
Separa o pôr-do-sol da noite estrelada.
Os loucos langorosos dançam e cantam entre as grades.
Aleluia! Aleluia! Além da piedade.
a ordem do mundo fulge como uma espada.
E o vento do mar oceano enche os meus olhos de lágrimas".
Ledo Ivo - O Desconforto
"O dia está cheio de palavras.
Elas escorrem como a água das sarjetas ou a saliva da boca
dos demagogos.
Espalham-se no chão como as folhas de um outono
excessivo.
Transbordam das lixeiras junto com as latas de Coca-Cola
e restos de comida.
São piolhos que avançam na selva da tarde.
Ninguém pode viver sem as palavras.
Isto explica o desconforto dos passageiros do metrô.
Condenados a um silêncio temporário
eles se entreolham suspeitosamente na plataforma da
estação
e estremecem quando as portas do trem se fecham.
Embalados pêlos solavancos de uma viagem sem paisagem
ouvem os vagões rangerem nos trilhos taciturnos
na escuridão que sustenta o clamor da cidade.
É o que sobra do rumor do mundo. Mas eles querem o
instante
em que, devolvidos ao dia loquaz, voltarão a falar".
Ledo Ivo - A Queimada
“Queime tudo o que puder:
as cartas de amor,
as contas telefônicas,
o rol de roupas sujas,
as escrituras e certidões,
as inconfidências dos confrades ressentidos,
a confissão interrompida,
o poema erótico que ratifica a impotência,
e anuncia a arteriosclerose,
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil,
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos,
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita”.
Accent
Mal uma aspirante a modelo desembarca em São Paulo e já está reproduzindo a fala pós-patricinha abonada que se tornou dominante em parte da cidade, com vogais estendidas, pronúncia veloz e 'erres' pronunciados. Ex: "Ah saaaaabe, nem sei se eu queeeero ir". Para quem não conseguiu identificar, Gisele Bündchen fala escancaradamente dessa forma - quem não souber que ela é gaúcha do interior, não tem como adivinhar. É interessante. Esse sotaque - que se restringe ao sexo feminino jovem (os meninos têm preferido imitar o jeito de falar dos 'manos', bem fake por sinal) - é recente (entre outras falas novas), simplesmente não existia até o começo dos anos 1990. Coincide com a própria afirmação de São Paulo como cidade dominante e polo cultural do país, deixando de ser o eterno patinho feio e caipira em comparação com o Rio, cujo declínio se acentuou não por coincidência a partir dessa mesma época (mas que felizmente está sendo revertido pouco a pouco). Isso tem se refletido na televisão, já que de uns tempos pra cá, atores que falam com sotaque de São Paulo - qualquer um - continuam com ele, sem se deixar 'contaminar' pelo belo sotaque carioca - até bem pouco tempo isso não acontecia, é só lembrar Luana Piovani, paulista de São Bernardo do Campo que virou carioca da gema já na segunda fala de alguma novela ou minissérie. Angélica (Santo André) idem - Glória Menezes, Fernanda Montenegro e Tony Ramos são exceções. Mas o que me fez escrever este post é uma outra coisa. Nem todas as meninas que vem de fora se sentem à vontade para falar daquela forma. Noto que as que chegam para trabalhar em profissões mais humildes geralmente continuam a se expressar em seus sotaques de origem, Brasil a fora. E é evidente que não se trata de falta de habilidade para reproduzi-lo, ou ausência de contato com outras jovens que o praticam. Arrisco dizer que elas não cogitam falar 'patricinha' porque não se sentem no direito - por não possuir o status social que se exige para se comunicar naquele código. Mas, por linhas tortas - já que os motivos não se justificam - acho bom que assim seja, porque o sotaque patty me soa mal, não só pela sonoridade discutível, mas porque entrega uma postura deliberadamente fútil e meio ignorante.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Leonardo
Li algo que citava Leonardo da Vinci. O ecletismo de da Vinci é sempre reverenciado, mas acredito que se falamos dele ainda hoje – e por muitos séculos ainda falaremos – isto se deve a sua genialidade como artista. Foi um pintor e desenhista único numa época coalhada de gênios da arte. Pode ter sido o maior QI da humanidade, mas não desenvolveu uma teoria científica propriamente dita, até porque a metodologia científica teria de esperar por Copérnico, Galileu, Bacon e Descartes*. Mas foi um dos maiores artistas da humanidade, o que explica e justifica amplamente sua fama.
* não duvido que, tivesse ele nascido a partir do século 17, teria antecipado Newton e até Einstein!, sem deixar de produzir grande arte.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Elia Suleiman - obra-prima
Que filmaço que é 'O Que Resta do Tempo'. O diretor Elia Suleiman (que eu não conhecia por ignorância, já que ele já tem uma carreira consolidada) usa um tipo de representação meio surrealista para retratar a história de sua família, a partir da ocupação israelense da Palestina, em 1948, até os dias de hoje. Há toques de no sense, mas o filme é rigoroso nas cenas cruas de violência, conseguindo retratar a guerra no âmbito individual, o que resulta num registro ainda mais brutal. Direção de arte e de atores mais do que perfeita. Os diálogos são elegantes mas as imagens falam por si o tempo todo, é cinema puro, na veia. Os enquadramentos à distância, nos mesmos cenários (que nos remete a Tatit não só pela mudez do personagem/diretor) é recorrente, e tem a ver com o título, porque é como se nada acontecesse na vida dos personagens, dada a impotência da situação - não há como combater o invasor, dadas as diferenças flagrantes de poderio. O filme é tão poderoso que parece materializar os sentimentos de opressão e perplexidade. Obra-prima. Tem muitas cenas e soluções antológicas (como a do salto em vara sobre o muro israelense), mas já no final, a dos fogos de artifício comemorando o Ano Novo, remetendo à uma desastrada globalização e ao barulho das bombas reais, é daquelas que não se esquece tão cedo. PS: quantos "bilhões" de dólares terão sido consumidos para a realização deste filme?... Referência à eterna desculpa da falta de recursos justificando a mediocridade do cinema brasileiro. Suleiman, e não só ele, mostra que a tese é pura cascata. Talento (e às vezes genialidade) é essencial.
terça-feira, 2 de março de 2010
Freire e Chopin
Belo artigo de Nelson Freire sobre Frederic Chopin no Estadão de domingo (caderno Cultura, pág. 14). Todos sabemos da genialidade do compositor polonês, um dos quatro ou cinco gigantes da música em todos os tempos, mas Freire nos passa uma admiração diferente, aquela que só os intérpretes - os grandes intérpretes - podem sentir. Apesar de ser reconhecido como um dos maiores pianistas do mundo em atividade do repertório romântico (senão o maior), Freire não joga isso na nossa cara - seu texto é ao mesmo tempo denso e leve, bastante informativo, mas acessível ao leigo. Não faz um apanhado geral da obra de Chopin - prelúdios, valsas, fantasias e improvisos etc - não haveria espaço (mas daria um belo livro), apenas nos conta algumas de suas impressões a respeito. Por exemplo, de sua emoção ao ouvir o segundo movimento do concerto nº2, as inovações sempre presentes, a musicalidade e a grandeza dos noturnos. Perto do final, ele cita uma frase de Horowitz, para quem "o mais difícil no piano é fazê-lo cantar", e que Chopin, segundo Freire, faz exatamente isso em sua obra enxuta e monumental. Com precisão cirúrgica, o pianista acrescenta que enxerga ecos das óperas do bel canto, de Donizetti e Bellini, na música do gênio polonês. Bingo! Depois de citar um sábio comentário de Lizt sobre Chopin ("o rubato em Chopin era como uma árvore - as folhas sacodem ao favor do vento, mas o tronco está ali, constante"), ele encerra o artigo agradecendo que tenha escolhido o piano, caso contrário, não teria Chopin tão próximo. Lindo.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Chato
O Jornal Nacional continua sendo, de longe, o melhor telejornal produzido no país, incluindo os canais de assinatura, isso para mim é inquestionável. O alto nível do texto, dos apresentadores, reportagens, pauta, a qualidade de grande parte dos repórteres, a abordagem precisa, enfim, não dá para comparar. Por isso foi chato constatar que os Jogos de Inverno de Montreal foram praticamente ignorados pelo programa, pelo prosaico motivo de que seus direitos de transmissão na TV aberta pertenciam à outra emissora que não a Globo, no caso, a Record. Quem não possui TV por assinatura e só tem tempo de ver o telejornal da noite (no meu caso o JN), mal notou que os Jogos estiveram a pleno vapor nas duas últimas semanas. Foi exatamente o que me aconteceu, porque não tenho canais pagos de esporte e simplesmente não consigo acompanhar telejornais mal feitos e/ou tendenciosos, e o da Record é um deles, entre tantos outros. Como a tevê do Bispo também possui os direitos de transmissão das Olimpíadas de Londres, em 2012, a coisa tende a se repetir, o que é lamentável.
Nota
No final da tarde de ontem, presenciei a cena. Uma criança de no máximo dois anos observava seus 'pais', visivelmente alterados, discutindo aos berros, quase aos tapas, sem saber bem o que fazer. Provavelmente estaria com frio, já que usava uma roupinha muito leve para aquela temperatura na casa dos 17, 18 graus. Não duvido que estivesse com fome. Acabou sobrando umas palmadinhas e gritos para ela - uma menina - nada que a machucasse, a questão é outra. Essa 'família' estava na rua - tinha se instalado na frente de uma loja, improvisando papelões que serviam de telhado e colchão. Me informei e descobri que eles costumam passar o fim de semana lá, para esmolar. O que me pergunto é como pode ser permitido que uma criança fique em tais condições. Viver na rua é só mais um absurdo, mas está longe de ser o principal, já que àquela menina falta tudo - comida, cuidados, afeto, respeito, higiene, carinho, roupas, educação, atenção etc, etc. O Estatuto da Criança e Adolescente está para completar 20 anos. Por sua abrangência e detalhismo, parece fadado, como tantas outras leis no país, a não ser levada ao pé da letra. Sou leigo no assunto, mas para mim trata-se de uma grande hipocrisia brasileira, mais uma, já que só protege o menor no papel, e às vezes nem no papel - por uma série de entraves legais, o estatuto não impede que crianças inocentes como a que vi sejam exploradas e mal tratadas daquela forma. Simplesmente não é proibido, a não ser que ela venha a ser surrada ou abusada. Então ficamos na situação em que uma menina de dois anos PODE passar a noite na rua se os responsáveis por ela assim decidir. Pode passar fome e frio, e o estado assiste a isso de braços cruzados. Em qualquer lugar civilizado bastaria chamar algum orgão competente (ou simplesmente a polícia) para que a criança fosse localizada e recolhida da rua imediatamente, e os pais ou tutores, processados. Em alguns estados dos Estados Unidos, como na Califórnia, maus tratos aos animais dá cadeia. Não aqui - animais e crianças ficam a ver navios. Mas um possível assassino de 17 anos não cumprirá pena, em nome de sua proteção. Posso ser chamado de simplificador e superficial, mas não aceito essa lógica.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Abominável
Lula, nosso operário padrão, mereceu que Orlando Zapata, o dissidente cubano que fazia greve de fome há 85 dias, morresse justo durante sua visita de cortesia e turismo a Cuba, a eterna ilha da fantasia de Chico Buarque, Frei Betto e o grande Gabo. "Ele se deixou morrer", disse Lula, tentando defender o indefensável, antes (ou depois, tanto faz) de fazer tietagem explícita a Fidel, máquina fotográfica em punho, registrando o abraço de seu ministro Franklin ao ditador aposentado. De quebra, o presidente ainda acusou a família e amigos do morto de fabricar que tivessem tentado uma aproximação com ele, em busca de ajuda. "Garanto que não chegou nenhuma carta" (sic). Mas o teatro do absurdo não parou por aí. "Demos a Orlando nosso melhor hospital, mas ele não resistiu", explicava entre sorrisos o ditador-substituto, Raul, num cinismo que talvez fizesse corar Stálin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung e o astro maior, Hitler. É inacreditável. Em pleno século 21, Zapata já tinha sido condenado a quase 30 anos de prisão simplesmente por discordar de um regime totalitário. Iniciou uma corajosa greve de fome e morreu em decorrência dela. Mas não será um mártir da esquerda, evidente. Estava do lado 'errado', daí a acusação de Lula que teria se 'deixado morrer' - Zapata se deixou morrer, Marighella não, este é o raciocínio boçal. De todos os absurdos que tivemos que presenciar de Lula e seu staff nos últimos sete anos, este episódio em Cuba terá sido o mais baixo, leviano e estarrecedor.
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