sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Blog e twitter do Francis aos 80
Inevitável imaginar se hoje Paulo Francis teria seu próprio blog, e como ele seria. Talvez não se interessasse, mas por que não? Sua matéria-prima eram idéias que ele logo transformava em textos de primeira grandeza, então por que ao menos não cogitar a possibilidade, considerando que ele seria, claro, muito bem remunerado para tocá-lo? Imagino um blog dele no portal da Globo, por exemplo, com a mesma liberdade quase total que sempre teve - não sobraria pedra sobre pedra, não tem como evitar o clichê... Por sua monstruosa capacidade de trabalho (e gosto por boa remuneração), não duvido que blogasse sem interromper a coluna (Estado e O Globo) nem os comentários na TV Globo. Se isso acontecesse, não creio que o PT, pós-mensalão, ainda continuasse a existir... hehe! Bom, neste 2010 ele completaria 80 anos, e não duvido que estivesse tinindo, como aliás estava quando morreu, aos 66 - me lembro bem que os textos dos últimos três, quatro meses antes do infarto estavam melhores do que nunca: mais pessoais, confessionais, quase líricos. E nada a ver com alguma premonição do que estava por vir, é que ele era do tipo que só melhorava com a idade - caso chegasse aos 90 com saúde, não tenho dúvidas que seu texto teria alcançado um nível ainda mais elevado. O blog, certamente sensacional, seria um presente inestimável para aqueles que, como eu, não se satisfaziam com "apenas" duas gigantes colunas semanais. Salve! PS: quem sabe não fizesse também bom uso do twitter. Já consigo visualizar mensagens cabeludas que ele fosse metralhando durante encontros com amigos e colegas, no Rio, NY ou São Paulo - ou durante suas tradicionais (e curtas) férias em Londres e Veneza. Impagável, for sure!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Astonished
A história que segue é real e aconteceu hoje, no começo da tarde. Estava trabalhando (e de vez em quando postando) numa biblioteca com Wi-Fi, quando um senhor, aparentando uns 80 e poucos anos, senta perto de mim e me aborda super entusiasmado com seu netbook, realmente minúsculo, que lhe serve de plataforma de trabalho. Mas a empolgação dele é outra. Diz, sorridente, que após tantos anos, deixou de pagar a conta da conexão de internet. Por isso vem só de vez em quando a lugares como esse, para ler e-mails, dar uns telefonemas etc. Bem impressionado pela vitalidade daquele senhor ainda ativo, pergunto se não faz falta se conectar em casa. A resposta me deixou sem palavras. "Ah, mas eu me me conecto em casa, sim". Mas como, pergunto eu, me sentindo meio ignorante. "Simples! Procuro alguma conexão Wi-Fi dos meus vizinhos de prédio que não tenham senha, entro, navego, pego e-mails e continuo o trabalho". Pausa e ponto final.
Literatura Comparada e Presentismo
Aliás, falei em professores de literatura e me veio à cabeça certos cursos de Literatura Comparada. Muitos são pura picaretagem, em que os ditos especialistas gastam 100% do tempo tentando provar as motivações deste ou daquele grande escritor em uma dada obra (o que passava pela cabeça do gênio quando da elaboração do segundo parágrafo do décimo capítulo etc), praticando, portanto, um tipo de 'presentismo' descarado, explícito. Por presentismo, como definiu Paulo Francis, entenda-se a tentativa de dissecar o passado com os conhecimentos do presente, como se nossos antepassados, sem mais o que fazer da vida, só tivessem vivido para nos legar esse presente em que vivemos... E o pior é que, neste caso, mesmo com conhecimentos dos fatos históricos, os caras erram fragorosa e invariavelmente... e não poderia ser diferente, porque não dá pra misturar alhos com bugalhos: fatos concretos envolvendo uma coletividade é uma coisa, mas é quase impossível adivinhar o quê, como, de que maneira e em que grau esses fatos afetam cada indivíduo, gênio ou não... Argh.
Chão de Ferro
No final do ano encontrei uma brecha para reler Pedro Nava - fazia um bom tempo que não dava bola para ele. Na verdade, durante (toda) a década de 90, li tanto e tão repetidamente seus livros de memórias que parti para os comentaristas. Aliás, é preciso ter cuidado com certos ensaios de literatura feitos por 'especialistas', ou seja, professores de literatura. Às vezes são bem pertinentes, mas seus autores, quando não escrevem mal ou partem para a idolatria e verdades absolutas, quase sempre vêem defeitos na estrutura dessa ou daquela passagem, capítulo ou boa parte da obra analisada. Eu acabei me deixando influenciar (não de todo), comecei a ver pêlo em ovo e fui deixando o velho Nava para trás. Mas perto do Natal, não resisti a uma edição de Chão de Ferro que descansava na prateleira, me encarando - a única de minha coleção (que começou com meus pais) que comprei num sebo (em 1995), uma bela edição da José Olympio de 1976, já com coloração das páginas meio enferrujada, uma delícia. E o livro, se não arrisco a dizer que é o melhor, digo que hoje é o que me dá mais prazer. Tem várias, inúmeras passagens antológicas, me comove invariavelmente, é batata... Que livro maravilhoso, e apesar de ser o número 3 das Memórias, acho que pode muito bem ser o primeiro para quem ainda não começou a sequência, sem atrapalhar. Recomendo muito e PS: há um bom tempo Chão de Ferro foi reeditado e é facilmente encontrado nas boas livrarias da cidade. Uma pena que a José Olympio seja só passado, mas isso fica para um outro comentário.
Vida Alheia
Criei recentemente uma conta no Facebook, e noto que não se pode zapear à vontade por amigos de amigos se não fizermos o convite etc. Na prática isso é bom, porque as coisas ficam mais objetivas e seguras, mas foi inevitável lembrar do começo do Orkut, coisa de 4, 5 anos, até menos, quando dava para navegar ad aternum nos perfis dos amigos dos amigos, até cansar (hoje isso não deve rolar mais). E nem precisava ter conta, só Gmail, tanto que nunca tive um perfil lá (aliás tive, mas por muito pouco tempo, coisa de dois meses). Gostava, de começar por desconhecidos, até tentar fechar o círculo com algum amigo. Gostava mais ainda - como todo mundo - de fuçar esses desconhecidos, os gostos, listas de filmes, livros, férias, acabava rolando umas dicas interessantes, outras patéticas, mas no fim sobrava uma melancolia de constatar que somos muito parecidos nos nossos desejos, muito mais do que gostaríamos. Mesmo podendo ser essa diferença tão significativa quanto o 1,5% que nos diferencia dos chimpanzés. Por isso, em que pese o fim da brincadeira de espiar pelo buraco da fechadura, o atual mistério por trás de cada fotinho acaba soando melhor.
Estranhamento
Quando escrevi sobre Caetano, na hora de listar alguns outros grandes, não hesitei em escrever o nome de Assis Valente, já que ele compôs grandes canções e isso é de conhecimento geral, ou deveria ser. Mas o que eu não sabia até hoje, é que Assis Valente nasceu na mesma cidade de Caetano, Santo Amaro da Purificação, 31 anos antes (1911). Mesmo admitindo não ter lido nenhuma biografia de Valente, ainda sim acho surpreendente não ter descoberto essa coincidência em vários artigos e livros sobre MPB que li ao longo da vida, porque a considero relevante. Chega a ser estranho. Aliás, cabe um PS: Santo Amaro é mais falada hoje por causa de Dona Canô do que por Caetano ou Bethânea. Mas a mãe de Chico Buarque tb é centenária e ninguém fala nada! Cultura inútil do dia!
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Literatura, currículo Lattes e Jabutis
Agora pouco, vejo casualmente (numa lanchonete) a escritora X, cerca de 40 anos, relativamente conhecida (nem tanto pelos livros). Lembrando de Littell (ler post abaixo), realmente ele deve incomodar muita gente que publica desde cedo um monte de insignificâncias - o caso de X - com uma espécie de currículo Lattes na cabeça. O raciocínio é o seguinte: vou publicando desde cedo, e a 'maturidade' se encarrega de me tornar um grande escritor(a). Quanta bobabem... Nada contra publicar desde cedo, mas será grande quem se tornar grande, óbvio, o que vale tanto para estreantes geniais como Littell - mas já não tão novos - como para os que começaram cedo e modestamente, mas foram se tornando importantes aos poucos. O mesmo para estreantes geniais precoces, como Rimbaud, por exemplo, mas nem precisa tanto - Gore Vidal começou bem aos vinte e um. O fato é cada um desses exemplos se aplica apenas a uma diminuta fração dos que se aventuram a criar algo, óbvio, porque a imensa maioria não chegará a lugar nenhum, seja com zero, um ou duzentos livros publicados... Mas é que essa conta parece que casa bem no Brasil, com algumas pseudo-sumidades premiadas ano sim, ano também, com Jabutis e outras baboseiras menores... Vale até para um ou outro Nobel... Por isso prospera.
As Benevolentes
Por falar em ocupação nazista na Rússia, esse assunto sempre foi um tipo de obsessão pra mim. Não só na Rússia, mas a ocupação que se deu em toda a Europa Oriental durante a Segunda Guerra. Por isso que fiquei tão fascinado com 'As Benevolentes', de Jonathan Littell (li o catatau de 900 e tantas páginas em cinco ou seis dias, em janeiro do ano passado). Fascinado e meio incomodado, porque é um escritor da minha idade que teve a ousadia, a petulância de encarar o assunto e a competência de fazê-lo como um Tolstoi, com quem chegaram a compará-lo, no que concordo. Littell se fechou em casa por três meses, escrevendo à mão (em francês) e pronto!, simples assim, estava terminada a obra-prima, seu primeiro livro de fato. Confesso que o feito me provocou alguma inveja (mas não muita, hehe). Tenho acompanhado a carreira dele, um francês criado em Nova York e que depois de famoso passou a viver em Barcelona. Já escreveu uns dois livros depois de As Benevolentes - sempre sobre o assunto fascismo pelo que entendi do título (ou seja, de como a humanidade pode ser má) - e a torcida é que o traduzam o quanto antes.
Caetano
Falando em compositores nascidos nos anos 1940, e mais especificamente dos brasileiros, seria o caso de destacar não propriamente esta década, mas o ano de 1942. Um ano terrível, em que a Alemanha nazista ainda vencia a guerra e mandava ver na Rússia, já ocupando um pedaço nada desprezível do seu território. Mas foi neste ano que nasceram Caetano, Jorge Ben, Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento. Portanto, para quem gosta de MPB - e eu já gostei, ou já gostei bem mais - é um ano crucial. Mas vou me ater a Caetano Veloso. No que toca as canções, para mim ele é, de longe, o maior compositor brasileiro, em qualquer tempo. E não me refiro apenas às letras - isso é uma bobagem, porque canção é a arte de fazer bem a amálgama letra/melodia. Há quem faça boas letras mas não consegue fazer decolar uma canção, e vice-versa. Por isso existem as parcerias, mas há quem consiga fazer tudo sozinho e bem, ou muito bem, como ele, Bowie, Dylan, Neil Young, não muitos mais. Então não vale falar que ele é um 'bom letrista', como muita gente que o despreza faz ao fingir que o elogia - nos melhores trabalhos, a amálgama que ele já conseguiu produzir é uma alquimia de primeira classe, sem paralelo. E Caetano foi um caso raro de mestre/virtuose desde o início, (como Dorival Caymi), e se sua obra passou por uma evolução, ela foi rapidíssima e consciente - do LP 'Domingo' (1967) para o 'Caetano Veloso' (1968), em menos de um ano. E num período relativamente curto, ainda na fase inicial da carreira, foi capaz de compor, sozinho, Baby, Tropicália, Janelas Abertas nº2, Os Argonautas, Alegria, Alegria, Paisagem Útil, Superbacana, Atrás do Trio Elétrico, Saudosismo, Frevo Novo, Chuva Suor e Cerveja, Como Dois e Dois, Você não Entende Nada, London, London, Maria Bethânia, It´s a Long Way, You Don’t Know Me, Nine Out Of Ten, Drama. É um dos maiores criadores brasileiros em qualquer época, simpatize-se ou não com ele - e não estou desprezando por isso grandes da MPB como Jobim, Braguinha, Lamartine, Ary Barroso, Chico Buarque, Noel, Tim Maia, Assis Valente, Edu Lobo etc, etc, é que considero Caetano um caso à parte pela rara combinação de ousadia, inventividade e domínio letra/melodia. Mas há um bom tempo não tenho tido vontade de ouvi-lo. Talvez seja uma fase. Mas ao escrever esse post, me deu vontade de escutar 'Saudosismo', não na versão original (com Gal Costa, que é muito boa por sinal), mas a do próprio compositor, acompanhado só de violão, gravação que ele fez em Nova York em 1985. E de dizer que 'Livros', que já é do final dos noventa, é uma grande canção.
Datas e Mendelssohn
Sempre me intrigou que um curtíssimo período da história tenha concentrado o nascimento de tantos grandes da música. Em pouco mais de quatro anos vieram ao mundo Mendelssohn (1809), Chopin (1810), Schumann (1810), Liszt (1811) e Wagner (1813), mas sem forçar muito (só um pouquinho) daria para incluir Berlioz (1803). E isso nem é tão incomum, já que um trio da pesada como Händel, Bach e Scarlatti nasceu no mesmo 1685, incrível! E apenas três anos antes, Rameau... E forçando um pouco, como fiz com Berlioz, daria para acrescentar o grande Vivaldi, que é de 1678. Lembra tb o começo dos anos 40 para a música pop - no Brasil e no mundo. Tudo isso para falar da minha admiração crescente por Feliz Mendelssohn. Que compositor magnífico! Acabei de ouvir seu trio nº2, opus 66, de estremecer. É ao mesmo tempo lírico, profundo, triste, alegre, enxuto, exato. Volto depois para falar de minha veneração por Chopin.
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